A monogamia em questão: surge cada coisa em rede social!

A primeira vez que lidei com um argumento favorável à poligamia, com ares científicos, foi no livro "A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado", de Friedrich Engels.

É claro que do início ao fim achei aquele texto absurdo. Não porquê tinha capacidade acadêmica para rebater os argumentos ou conhecimento histórico para identificar quais partes eram pura fantasia e quais partes eram fruto de evidências coletadas. Não, nada disso. Há algo sobre a realidade que se impõe sobre a fantasia teórica: a realidade é o que é, é convincente por si mesma. Por isso, não é tão difícil para qualquer um viver de acordo com a realidade e pautar suas escolhas com base no bom senso.

Pois bem.

Este ano me deparei com a defesa da poligamia nas redes sociais. O argumento-chave sempre vem à reboque, é a tal da "liberdade". A ideia é que relacionamentos monogâmicos representam um tipo de opressão, de limitação da liberdade e de imposição de costumes restritos a um pequeno grupo dominante sobre todo o corpo social. Neste tipo de pensamento, relações verdadeiras não aprisionam, pelo contrário, celebram a alegria do outro ir e vir quando quiser.

Recordo-me agora de conviver de perto com amigas cujos pais optaram pelo divórcio. A criança teve de lidar com a decisão libertária dos pais, lidar com a ausência de um deles, lidar com os questionamentos internos e aprender a viver em uma situação imposta a ela, sim, de cima para baixo, em função da liberdade dos adultos. Esse é só um exemplo pequeno de como a nossa sociedade parece odiar a infância.

Já ouvi o argumento também que a poligamia abre a possibilidade de relações mais saudáveis. Acompanhe comigo: cada parceiro será um parceiro para cada propósito, ou seja, o parceiro sexual pode não ser um parceiro de escuta e companhia, pode não ser o parceiro das contas a pagar, pode não ser o parceiro da criação dos filhos, pode nem ser o parceiro que vai te acompanhar ao médico ou comemorar seu aniversário. Para cada necessidade há um tipo de parceiro ideal, não devemos esperar que uma só pessoas cumpra em nossa vida todas essas funções.

Lembro-me agora de outra amiga cuja companhia tive a alegria de desfrutar no período da escola. Lembro do incômodo dela em assistir a mãe mudando de namorado constantemente.

Para Engels, a distinção familiar é fruto de um projeto de opressão e sustenta a opressão social. Se antes, segundo seu livro, as sociedades humanas eram mais livres e felizes quando as crianças pertenciam às tribos, ao invés de pertencerem aos pais, a constituição não natural do núcleo familiar tem um objetivo puramente malicioso de controle e acúmulo de bens.

Para responder a Engels, pela graça de Deus, conheci autores como Dooyeweerd e Kuyper, cujos argumentos não só respondem como superam a narrativa daquele primeiro.

Para Dooyeweerd, as distinções dos campos representam o florescimento da vida humana, ou seja, "a indiferença entre essas [Igreja e Estado] e outras esferas de uma sociedade demonstra sua imaturidade e não seu avanço" (Dulci, 2018). Podemos falar em "campo " ou em "esfera", em ambos os casos estamos nos referindo as esferas como o Estado, a Família, a Escola e a Arte. Não há diferenciação desses campos nas sociedades primitivas apontadas por Engels, lugar de onde se tenta retirar algum tipo de "pureza" ou "essência" da vocação social humana.

Ora, se consideramos a necessária distinção dos campos hoje como uma espécie de avanço, ou de florescimento, prefiro esse termo, afinal, ninguém espera que o chefe do trabalho ultrapasse o limite da empresa e decida celebrar a Santa Ceia no domingo, participe das definições orçamentária da família ou decida o seu destino nas férias. O lugar onde chegamos nos faz clamar pela distinção, pela autonomia das esferas e pelo respeito dos limites: o chefe é chefe no trabalho e sua mãe não vai definir quais metas você vai atingir no trabalho.

No entanto, no que diz respeito às práticas das reações sexuais e as escolhas na família, costuma agora aparecer uns e outros querendo "desflorescer" e bagunçar as distinções, apagando as fronteiras e chamando isso de "avanço" ou de "voltar à essência".

A monogamia é o fundamento de uma vida social estável, você sabe disso sendo um herdeiro de milhões ou um filho cuja família cata os centavos para pagar o botijão de gás. Nós sabemos que com a falta de dinheiro conseguimos lidar, mas o abandono afetivo de pai e mãe gera marcas tão profundas que às vezes nem a melhor das terapias consegue curar.

A poligamia não é o caminho do florescimento humano, mas é mais uma prova do vazio, da falta de sentido e da carência amarga.

Não há, de fato, um parceiro capaz de lidar com todas as nossas questões e suprir todas as nossas necessidades internas, mas também não há número suficiente de humanos no mundo que dê conta do vazio no peito do homem. Só Cristo é capaz disso. 

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