Breves considerações sobre Paulo, o fazedor de tendas.
Se você é um cristão há pelo menos um ano em uma igreja que preza pela instrução bíblica, já teve tempo de conhecer Paulo e ter uma noção, pelo menos, da grande contribuição dele para a Igreja de Cristo. Você conheceu o fariseu conhecedor das Escrituras, o aluno de Gamaliel, o poliglota, o missionário ao mundo grego e ouviu falar da sua grande capacidade argumentativa. Você conhece o Paulo da doutrina, da conversão de tirar o fôlego, das viagens missionárias, dos açoites e perseguição. Conhece o Paulo da prisão, da alegria em meio a provação, o Paulo do zelo e do fervor. O Paulo que serviu a Cristo sofrendo com ele Suas dores.
Então, num belo dia, como que do nada, você começa a ouvir sobre o Paulo fazedor de tendas. Aquela informação curta que te ajudou um dia a entender mais ou menos como funcionava o sustendo do apóstolo e seu sofrimento no campo missionário. Já agora, aquilo se apresenta quase como doutrina, como instrução e pasmem, como modelo de atuação ministerial para pastores e teólogos.
Ô gente.
A gente precisa ter cuidado para não confundir o fato de Paulo ter, em algum momento da trajetória ministerial, trabalhado fazendo tendas para se manter, com a ideia mirabolante de "vamos ensinar sobre empreendedorismo e marketing digital para os ministros terem um renda e não serem pesados à igreja".
Paulo viveu antes da Revolução Industrial, antes do Capitalismo, antes da indústria da informação, antes da Administração Científica, antes do Marketing Gerencial, antes da criação dos serviços e produtos financeiros que nos alertam o tempo todo sobre a necessidade de investir nas diversas sopas de letrinhas do mercado financeiro.
É perigoso falar sobre o "envolvimento de Paulo com o comércio" sem considerar o que era o comércio naquele período e principalmente quais eram os pressupostos fundamentais do apóstolo sobre trabalho, dinheiro, comércio, prosperidade e sobre, principalmente, o que significava a "manutenção pessoal".
Ainda é preciso considerar que Paulo não sendo casado estava livre da responsabilidade com esposa, filhos e casa. Assim, aquilo que representava o seu sustento diferia do que se pode pensar no sustento de uma família!
É preciso considerar para fins práticos hoje que "fazer tendas" através de um trabalho formal significa dedicar algo em torno de ⅓ do dia a uma atividade que muito provavelmente não ajuda em nada o vocacionado a aprimorar seu conhecimento em grego e hebraico, fundamentais para a prática ministerial.
Naqueles casos do ministro "fazer tendas" através de um negócio próprio, é preciso considerar coisas como por exemplo, qual é a expectativa de crescimento desse negócio e qual sua disponibilidade de desprendimento caso seja chamado a doar à empresa ou simplesmente fechar as portas em função do ministério. Além de ter clareza sobre o que significa honrar a Deus através dos negócios ao invés de seguir os padrões de conduta do mercado.
Paulo atuou no comércio, é verdade, mas isso não representou a totalidade, nem mesmo uma boa parte, de seu ministério, nem foi para ele a consolidação de um império. Paulo serviu à igreja não porque se esforçou bem na esfera econômica, seu legado passa por sua formação religiosa e intelectual, principalmente. Isso sim era seu trunfo em termos de influência cultural em seu tempo, na sua geração.
No entanto, graças a Deus por Lídia e sua prosperidade financeira, através dela aquela primeira convertida pôde servir à igreja de Filipos recebendo os irmãos em casa e apoiando financeiramente o ministério apostólico.
A gente precisa ter cuidado com a expectativa de ter sucesso/prosperidade nos negócios e no ministério, principalmente quando nossa definição de sucesso vem dos gurus do mercado financeiro.
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