Sobre riqueza, trabalho e dízimo (parte 1)

Quando estava no fundamental I comecei a vender bijouteria.

Havia uma lojinha uns dez minutos de distância à pé da minha casa que vendia vários tipos de miçanga e outros materiais de montagem, minha mãe ia comigo, ajudava a escolher as peças e pagava por tudo, é claro. Valeu, mãe!

Naquele período, gastava algumas horas das minhas tardes sentada no chão cinza do quarto, montando pulseiras; eu amava montar pulseiras e colares. Embalava cada peça, algumas eram conjuntos, precificava e aguardava o outro dia de manhã para vender na escola. Todas as peças eram feitas com nylon mesmo, arrematadas com um nó nas pontas. Meu objetivo de médio prazo era evoluir as peças, comprar um alicate e começar a trabalhar com fechos melhores. Vender era a parte ruim. Tinha vergonha demais. Custava muito apresentar os produtos na coordenação e para as professoras - o público mais endinheirado - mas ainda conseguia vender uma peça ou outra para elas. Vendia mais para as amigas próximas mesmo e voltava feliz da vida para casa com money no bolso.


Ter crescido na igreja e convivido com pais cristãos me ajudou a desde cedo firmar um compromisso com Deus na entrega do dízimo. Assim, aprender a lidar de maneira fiel com o dinheirinho pouco no bolso da farda, ajudou firmar três valores em meu coração, quando o assunto é moeda:

1. Era preciso devolver ao Senhor o dízimo do pouquinho arrecadado. Aqui o mais importante não é o montante, mas o compromisso carnalizado. A maioria de nós, em algum momento da vida, se verá na pele de uma viúva com dois filhos e apenas duas moedas no bolso. Nesse dia, o que nos fará honrar a entrega do dízimo na casa de Deus é a prática fiel firmada ao longo do tempo.

2. Trabalhar é bom. Trabalhar significa desenvolver habilidades e entregar aos outros algo de valor, dentro do contexto e necessidade dela. O trabalho faz bem a quem executa e a quem usufrui do seu fruto. Melhor que receber dinheiro dos pais, é poder trabalhar junto com eles, gerar alguma riqueza e ter a possibilidade de contribuir com a casa.

3. Se planejar é necessário. Houve dia de ficar sem dinheiro porque o pessoal não pagava e eu não tinha coragem de cobrar. Pobre garota. Naquele tempo eu entendi que ter dinheiro no longo prazo daria muito trabalho, exigiria certas regras para vender e um bom planejamento. Não bastava montar as pulseiras e vender as miçangas no pátio da escola para garantir o futuro promissor do meu negócio.


Não me lembro de ter qualquer tipo de crise nessa época sobre se ter dinheiro era ruim ou não, para mim, sempre foi bom. Com ele eu podia comprar novos materiais e vender novas pulseiras, com ele eu ocupava meu tempo com minhas amigas na hora do recreio, com ele eu podia ofertar ao Senhor, com ele eu ocupava minhas tardes fazendo um trabalho manual que eu fazia bem, com ele eu podia me oferecer para comprar o pão lá de casa (embora sempre recusassem minha oferta), com ele eu podia encher meu cofre e guardar algum dinheiro para usar algum dia.


No próximo post falarei sobre o caráter pedagógico do dízimo, do trabalho e do planejamento.

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