O Senhor responde sim, mas nem sempre o que eu perguntei

Houve uma fase ali no início da adolescência que era comum eu não entender as pessoas e continuamente responder uma conversa com "hã?". Não sei se era cera no ouvido, falta de atenção ou só a dicção ruim das pessoas. Até ocorreu de uma vez um amigo do meu irmão perguntar se eu tinha algum problema de audição. Veja bem, até hoje às vezes parece que sim.

As leituras bíblicas diárias existem por vários motivos. O principal deles, ao meu ver, é porque Deus é digno de ser ouvido, mesmo que não seja compreendido, ainda assim Ele é digno da nossa atenção e tempo. Por isso lemos a Bíblia. Não movidos pela vontade, embora sejam os momentos de leitura associados à vontade de ler os mais prazerosos, somos movidos pelo compromisso, pela constância, pelo dever, pela sede da alma (que é distinta da vontade!) e pela consciência.

Há também um outro bom motivo para a prática da leitura bíblica: o desejo e principalmente a necessidade de conhecer a vontade de Deus para as nossas vidas. Conhecer nossa vocação e o que Deus deseja de nós. Isto importa porque as alternativas são inferiores em resultados e experiência.

Podemos fazer de nossas vidas exatamente aquilo que desejamos. Para bem dizer a verdade, só os adolescentes desejam a liberdade de "fazer o que der na telha". Os adultos já se deram conta de que não podem confiar em si mesmos, por muito motivos eu poderia apontar aqui, mas principalmente porque são voláteis em pensamentos e desejos. Há também a alternativa de viver de acordo com as expectativas de outros, viver como os outros desejam, de acordo com suas opiniões e frustrações. Há quem se permita viver à sombra de alguém porque ali encontrou segurança, ali não precisa se preocupar com a responsabilidade das suas escolhas, nem lidar com as consequências de suas ações. Viver sob a tutela de alguém nunca foi o projeto de Deus para os homens, o Criador nos fez visando a maturidade capaz de gerar uma humanidade apta a governar e encher a terra. O terceiro modo de ser e estar no mundo é ocupá-lo segundo a orientação da voz de Deus. E esta não é confusa ou incompreensível. Não é, no entanto, manipulável. Deus fala à medida do que deseja e não à medida de nossas perguntas. Aquilo que Ele fala deve ser recebido com gratidão e temor, não com a insatisfação de quem perguntou uma coisa e obteve outra como resposta.

Por muitas e muitas vezes perguntei ao Senhor a mesma coisa. Em todas as orações obtive a seguinte resposta "você está pronta para obedecer independente do eu diga?". Nós dois, o Senhor e eu, sabíamos que não. Naquele longo tempo não era aquela resposta específica a minha necessidade, precisei compreender isso e submeter os meus ouvidos à Sua voz. Precisei dar atenção ao que o Senhor apontava e deixar de molho aquela dúvida incômoda. Por vezes me fiz de surda e voltei diante do Senhor refazendo o questionamento, como quem pensa "agora ele me responderá". E mais uma vez Ele falava sobre um outro assunto, chamava a atenção para outra coisa, indicava a direção sobre o que eu não tinha perguntado, enquanto baixinho, mais uma vez, dirigindo-se a mim perguntava: "você está pronta para obedecer independente da resposta?".

Depois de muito tempo, finalmente, entendi:

Preciso mais do Senhor e da vida de Cristo vivendo em mim que de clareza sobre minhas dúvidas. Um coração agitado por questionamentos não será tratado por Deus através das respostas, saciando as dúvidas. Deus deseja que descansemos nEle e façamos dos nossos dias altares de louvor a Ele. Tal descanso eu acho e perco com certa frequência, é verdade, levada pela vontade de controlar minha vida, agenda e futuro. E quando assim me perco vem a voz do Espírito Santo de Deus dizendo "volte ao lugar de descanso", esse lugar é sempre, sempre e sempre a palavra do Senhor, a contemplação da Sua presença e a oração atenta. 


Ao meu coração me ocorre: "Busquem a minha presença." Buscarei, pois, Senhor a tua presença. Salmo 27:8

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