O causo do cinema no dia do ensaio do coral

Quem cresceu em igreja viveu "causos e contos" esquisitos demais.

Hoje mesmo conversava com duas amigas sobre um desses causos. Éramos adolescentes fãs da saga Crepúsculo, aquela da menina sem graça que captou a atenção do cara mais cobiçado da escola só porque ele não conseguia ler a mente dela. Toda adolescente gosta de se sentir misteriosa, faz parte. Voltando. Éramos adolescentes fãs da saga Crepúsculo e decidimos gazear o ensaio do coro de adolescentes para assistir ao filme no cinema, só nós três. Tomamos banho, trocamos de roupa e nos arrumamos no banheiro da igreja. Nossa, que espertas, não?! Gente, isso deu um B.O...

A repreensão veio, claro. Se não me engano, e posso estar enganada, tentaram falar com a gente sobre responsabilidade e em como aquela situação toda era absurda, afinal, podíamos ir ao cinema qualquer outro dia, qualquer outro horário e não no horário do ensaio do coral. Tudo bem, o argumento faz sentido. Nada de errado com o cinema, mas daí a gazear o ensaio... não, aí já é demais. E não para aí não. Ainda rolou uma conversa de que tínhamos convidado outros adolescentes também, quer dizer, além de gazear o ensaio estávamos empenhadas em boicotar a próxima apresentação. Tudo um engano. Ninguém tinha sido convidado, era só a gente (só nossa panelinha, sim era uma panelinha, aos 26 anos já posso assumir, né?!).

Não lembro de mais nada sobre aquele dia.

A vida comunitária tem dessas coisas mesmo, puxões e solavancos de vez em quando. Há quem considere tais causos como suficientes razões para tornar o ambiente tóxico. Há quem dribla, põe a bola no peito e faz o gol da reordenação situacional. Quem dribla tem mais trabalho, é claro. E é assim em todo lugar, todos concordamos. Todo ambiente comum gera demandas, muitas vezes injustas, porque a realidade não é como gostaríamos que fosse e os marcos não são respeitados nos solavancos da vida. Nas comunidades de fé, na família ou no trabalho, todos estão atrás de objetivos e resultados, e para alcançá-los precisam dos outros. Quando os interesses se desencontram as cobranças desconfortáveis surgem e o ambiente pode ficar hostil. Principalmente porque diante das demandas os princípios e acordos tendem a ser esquecidos, considerados como obstáculos para o sucesso; o sucesso que muitas vezes é só de um.

A vida comunitária, na igreja, na família ou no trabalho é necessária e é sinal da benção de Deus sobre os homens, por isso mesmo não pode ser nutrida de todo jeito, à luz dos interesses de um só, nos moldes da dominação de cima para baixo, à serviço de projetos não acordados entre todos. Ela exige de nós deveres e tarefas, trabalho e doação, respeito e reconhecimento da dignidade do outro.

Não é coisa fácil, é o trabalho de uma vida toda.

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