“Por que ouvir um negacionista?”

De uma maneira muito tranquila, sem qualquer tipo de auto reprovação ou timidez, a religião cristã tem mantido seus discursos bem protegidos dentro das comunidades particulares. Nenhum pastor convida ao púlpito um orador que creia e pregue algo contrário à crença, modos e doutrina da comunidade local. Os grupos de estudo bíblico e os cultos solenes são momentos em que o conjunto de crença da comunidade é reafirmado e consolidado. De certa maneira, pode-se dizer que a religião protege um viés de discurso único, alinhado à doutrina e princípios que ordenam e orientam seus fiéis. Possui um único ponto de referência, estático e inabalável: a revelação bíblica.

Não é do interesse da religião trazer diferentes pontos de vista da realidade, nem diferentes perspectivas de interpretação e significado textual, promover o debate e deixar que cada fiel escolha sua própria narrativa e saia dos encontros feliz por ter acolhido o discurso mais apropriado a partir do ponto de vista pessoal. A religião opera de maneira a reunir todos os crentes em torno de uma interpretação e significado, embora compreenda que as aparências da igreja assumirão diferenças ao redor do globo.

No entanto, no debate público e democrático não é assim. O debate de ideias nos ambientes laicos estão livres das amarras de uma “revelação única”, estão livres do jugo de ter de ouvir apenas locutores alinhados com um único livro e com uma única tradição de interpretação do texto. O debate público e laico tem na ciência, humana e natural, uma de suas referências. Trabalha com múltiplas vozes que soam de diversas maneiras, a partir das mais variadas experiências. O debate público e laico é diferente do limitado discurso religioso.

Como poderia, então, um meio de comunicação, laico, público e democrático, estreitar seus interlocutores a um só tipo de referencial? Como articular convidados e entrevistados alinhados a um tipo de ideologia ou crença? Se os meios de comunicação adotam um referencial estático para legitimar seus interlocutores, parece-me, assim, mais religioso do que laico, público e democrático. Nem mesmo quando a ciência aparece como o tal crivo discursivo, afinal, nem ela outorga a verdade para si, mas caminha sobre o terreno da dúvida e avança por causa da refutação.

O jornalismo não é um paladino da justiça, nem alguma espécie de tribunal da verdade, não tem por vocação ser um filtro discursivo, nem é plataforma pedagógica, nem mesmo responsável por entregar os significados das ocorrências. Se ao jornalismo interessa a democracia e importa o espírito cidadão, cabe a esta esfera o papel de permitir a livre discussão de ideias. Os cidadãos devem construir e zelar pela democracia, atuando pelo bem comum e pela construção sadia da sociedade; aos meios de comunicação cabe abrir o espaço para a livre circulação de ideias.

Deixe que o cidadão leia, pense, discuta e decida


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