Quarentena dia 45
Há gemido sob a coberta dos anúncios. Gemido quieto correndo pelos lados do salão. Desespero enrustido no frenesi da oportunidade. Alguém pode nos levar a lamentar? Nos ensine o choro, depois o consolo. Carregue ao peito o lamento. Carregue os joelhos ao desespero. Resgate-nos enfim. Não, não estou distante, só preciso de descanso. Pai, guia-me na sabedoria, enquanto se achega o sossego a mim.
Trago poucas esperanças de um mundo melhor após o alagamento da covid-19. Os quase 7mil corpos de hoje à sete palmos do chão não serão suficientes para travar a engrenagem social, suas expectativas, objetivos e sentidos. Menos capazes ainda de gerar pitacos sobre uma nova maneira de fazer a roda da economia girar.
Sairemos da avalanche de mortes ainda mais frenéticos no consumo, instáveis nas relações, obsecados por produtividade, esfomeados por significado, vazios de esperanças e consolos sólidos. Olhos esbugalhados, almas secas, dedos ressecados por álcool, mentes sem sossego. Doidos. Ainda mais malucos.
As crises por si mesmas são ineficazes em produzir virtude no humano. Nunca nos faltou problemas, crises e incertezas, nos falta peito para encarar a vida tal como é e honestidade para refazer a rota, considerando esterco coisas reluzentes cuja essência passa longe de preciosa.
Voltaremos os mesmos só que piorados. A não ser por uma mudança radical de peito, de paixão, expectativa, ideal de felicidade e sucesso. Precisamos nos livrar da crise e, antes disso, nos livrar do tipo de gente que a gente era antes dela.
Quero escrever poesia de novo e ler Pessoa mais uma vez. Achar graça do português do Bilac e chorar lagrimazinhas tímidas por um poema bonito. Sentir gosto de vida na boca, não de sangue. Olhar lá onde acaba o mar e torrar o rosto sob o sol de uma praia em dia quente. No meio de um povo mudado de dentro pra fora, debaixo de Justiça e Ordem, desejando a Lei e caminhando como quem caminha ao lado do Amor.
Trago poucas esperanças de um mundo melhor após o alagamento da covid-19. Os quase 7mil corpos de hoje à sete palmos do chão não serão suficientes para travar a engrenagem social, suas expectativas, objetivos e sentidos. Menos capazes ainda de gerar pitacos sobre uma nova maneira de fazer a roda da economia girar.
Sairemos da avalanche de mortes ainda mais frenéticos no consumo, instáveis nas relações, obsecados por produtividade, esfomeados por significado, vazios de esperanças e consolos sólidos. Olhos esbugalhados, almas secas, dedos ressecados por álcool, mentes sem sossego. Doidos. Ainda mais malucos.
As crises por si mesmas são ineficazes em produzir virtude no humano. Nunca nos faltou problemas, crises e incertezas, nos falta peito para encarar a vida tal como é e honestidade para refazer a rota, considerando esterco coisas reluzentes cuja essência passa longe de preciosa.
Voltaremos os mesmos só que piorados. A não ser por uma mudança radical de peito, de paixão, expectativa, ideal de felicidade e sucesso. Precisamos nos livrar da crise e, antes disso, nos livrar do tipo de gente que a gente era antes dela.
Quero escrever poesia de novo e ler Pessoa mais uma vez. Achar graça do português do Bilac e chorar lagrimazinhas tímidas por um poema bonito. Sentir gosto de vida na boca, não de sangue. Olhar lá onde acaba o mar e torrar o rosto sob o sol de uma praia em dia quente. No meio de um povo mudado de dentro pra fora, debaixo de Justiça e Ordem, desejando a Lei e caminhando como quem caminha ao lado do Amor.
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