Vilamonte sitiada

## texto um para disciplina de graduação ##

Tota de chuva sobre meu ombro parecia pedra pontuda escavando uma ferida em carne viva. A visão ficando cada passo mais turva, entre um passo e outro uma quase queda sobre os próprios tornozelos desertores. Se pendesse para um lado cairia sobre os espinhos de 5cm de altura, se pendesse para o outro ficaria às vistas demais de quem passasse pela clareira, gente ou bicho; coisas que às vezes parecem a mesma coisa. Ordenei a cada célula do meu corpo que convocasse toda reserva de suas energias mitocondriais porque tão logo chegaríamos a um lugar seguro. Então, pendi para a esquerda e senti minha nuca arder. Vilamonte foi sitiada há 100 anos, a riqueza material foi toda recuperada no passar de uma geração, mas a memória coletiva manteve viva as imagens do conflito. Uma fogueira de quatro metros de altura foi erguida no centro da cidade. Homens e mulheres a partir dos 12 anos despendem diariamente parte de seu tempo para manter acesa as chamas que funcionam como um lembrete de alerta. Uma vez que o perigo visível do fogo discursa mais sobre os perigos não visíveis que sobre ele mesmo. Para quem enxerga de longe, Vilamonte parece estar queimando todo tempo. Um espectador paciente poderia propor, de longe, a visão de um mistério: um fogo que não se acaba, uma cidade que queima mas não rui. Não se pode fugir de Vilamonte, não às custas do próprio pulso de vida. Nessa autopreservação quase justa o medo funciona como carta na manga de quem sabe jogar, e fazer os outros jogarem seu jogo. A ameaça invisível tornada visível com outros elementos de natureza tão diferente da natureza do perigo potencialmente avassalador. Vilamonte foi sitiada por guerreiros, o fogo é só fogo, sem metafísica, sem coração, sem intenção, muito menos projeto. Mas faz temer e faz o peito arder em um constante diálogo interno de alerta: mantenha aceso o fogo para nunca se esquecer do inimigo lá fora. Um inimigo sem rosto, pintado apenas com as cores das chamas insistentes, despedindo silenciosamente qualquer vestígio de paz. Como canta Marcos Almeida, um artista mineiro da música brasileira: o medo estraga, o medo e mais nada. Enquanto o medo se estabelece no centro da cidade e é não só contemplado mas mantido pela energia e força produtiva daquele povo, toda estratégia militar é concentrada não na conquista e expansão de novas áreas férteis, mas na proteção de um terreno irritantemente vulnerável. Soldados especializados em proteger fronteiras, não em conquistar territórios. Uma filosofia sacana, despudorada e mesquinha, castrando a imaginação de crianças e jovens, tecendo teias novas com remendos velhos. O medo como força motriz de sobrevivência de uma cidade que já sobreviveu e superou o conflito centenário, funciona como mãos gigantes e potentes apertando os limites daquele povo por todos os lados, fazendo sangrar suas possibilidades de esperança, obrigando seus olhos baixos a manterem-se baixos e suas orelhas sempre tímidas. Fugi de Vilamonte, quer dizer, mais ou menos fugi de Vilamonte. Toda fortaleça tem suas fraquezas e decidi apontar uma delas quando utilizei a rota de fuga pegando a direção nordeste por trás da biblioteca abandonada. Atravessei o rio a nado, comi peixe mal assado do outro lado. Quando bateu o sol da manhã deitei na mata alta para dormir. Despertei ao som de uma trombeta desafinada e precisei correr. Isso é tudo de que me lembro por hora. Como vim parar nesse colchão macio não sei, só não quero abrir os olhos agora, não antes de saber quem está à minha frente encarando meu rosto sofrido com insolação. Cadê
a faca que estava aqui?

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