Coragem
A gente precisa de coragem para um monte de coisa. Hoje vou escrever sobre a coragem para começar de novo. Na última segunda-feira estava esperando minha mãe resolver uma pendência - inicialmente breve - em um dos escritórios do seminário onde estudou. Enquanto aguardava por ela na área externa, fiquei de pé reparando o céu sem estrela bem próximo a sala de piano onde alguém ensaiava uma partitura. Ouvia as idas e vindas, as repetições das partes onde houve erro de execução, as tantas tentativas, de novo e de novo até ficar bom, até ficar fluido, até ficar bonito e seguro. Me lembrei de como costumava ficar irritada quando precisava repetir a mesma série várias e várias vezes quando estudava teclado. Era uma coisa que me irritava na música, eu não conseguia pegar logo de primeira, nem de terceira ou de quinta, precisava estudar a mesma partitura durante dias até realmente conseguir executá-la. A faculdade de Administração me deixou ainda mais impaciente com as falhas. Uma das disciplinas que mais gostei foi a tal da Administração de Qualidade. Um dos conceitos da área se refere a "fazer certo da primeira vez". Eu amava pensar sobre aquilo. Uma empresa que consegue "fazer certo da primeira vez" utiliza menos recursos, economiza ativos financeiros e tempo, é uma empresa mais eficaz no que faz, mais competitiva no mercado, pode operar com preços mais baixos, ganha mais dinheiro, tem a confiança do consumidor e tantas e tantas coisas incríveis! Que frustrante é a vida do lado de fora da sala de aula da Administração da Qualidade... Preciso rever o artigo algumas vezes antes de enviar para a revista, preciso passar o vestido de novo porque ficou mal passado, preciso bater o suco de novo porque ficou muito grosso, preciso dizer de novo o que havia dito porque ficou confuso, preciso apostar de novo que vai dar certo porque da outra vez parecia que ia dar mas não deu; preciso fazer de novo, começar de novo, tentar de novo, por mais que planeje, por mais que saiba e esteja repetindo uma atividade já conhecida, o mais comum é ter de fazer aquilo de novo. Sou tentada a enxergar um círculo vicioso nisso, um vai-e-vem chato sem avanço, como uma vida que não progride, como alguém que ainda não aprendeu a fazer nada certo. E aí preciso de coragem para revisar aquelas coisas básicas sobre identidade, sobre quem eu sou e o que de fato Deus - olha Ele aqui - espera de mim. Encontro nEle não um olhar ansioso por minhas conquistas, mas um Alguém confiante na obra de Suas mãos. Dia e noite me lembro do Seu amor constante e fiel. Se eu puder me lembrar que o terreno onde piso é seguro, posso recomeçar quantas vezes forem necessárias, simplesmente porque minha fonte não seca e meu chão não cede. Posso começar, permanecer, insistir ou simplesmente começar tudo de novo se houver (e puder me lembrar que há) dentro de mim algo como uma fonte de água sempre limpa e doce jorrando o tempo todo.
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