Sansão nas paradas de sucesso

Essa é uma tarde de domingo parecida com todas as outras. Enquanto concluo a lição da Escola Bíblica de logo mais sobre imoralidade sexual, começo a listar exemplos bíblicos de gente que falhou nessa área. Bem, essa é a parte fácil, a Bíblia está cheia de histórias assim, ela não esconde os fracassos, sou grata por isso! Também tento listar bons exemplos, aí a coisa complica. Sansão não estava na minha lista de inicial de cinco histórias mal sucedidas, mas ao me lembrar dele corri para rever sua trajetória. Lá pelas tantas me lembrei de José, pai de Jesus. Lendo Sansão e pensando em José. A ficha caiu. Larguei a Bíblia na bancada e encarei minha parede branca recém pintada com cheiro (terrível) de tinta fresca. Abri o computador e agora começo a escrever o que veio à mente, em uma enxurrada de pensamentos.

Constrangimento, essa é a sensação. A história de Sansão constrange a gente, cidadãos ocidentais do século 21, pretensas pessoas evoluídas, esclarecidas, iluminadas, modernas, tecnológicas. Optamos pela beleza, pela força, pelo romance, pela satisfação sexual e pela performance, construímos relacionamentos nessas bases, publicitamos relacionamento apelando para essas bases, nos orgulhamos dessas bases e, obviamente, nos frustramos ao notar nossas conquistas escorrerem pelos dedos. Insatisfeitos, apesar de tudo, tudo o que fizemos.

Sansão, um guerreiro israelita, forte o bastante para rasgar um leão com as próprias mãos e matar mil soldados filisteus sozinho. Concebido debaixo de promessa e de benção, Sansão tinha em si não a força de um guerreiro comum, mas força dada pelo próprio Deus que o fazia um guerreiro diferenciado, com uma missão importante a ser executada. Um juíz, uma autoridade capaz de proteger e de lutar por Israel contra a opressão filisteia. Lendo sua história de novo me vem a imagem de um marombeiro de academia. Quase dois metros de altura levantando ferro e soltando um ruídoso e engraçado ruuur. Sansão era um excelente combatente, mas fraco para dominar a si mesmo. A parte fraca de Sansão não era seu cabelo, mas seu coração. Sua força não eram as mechas sedosas, mas a capacidade de obedecer. O problema é que o coração de Sansão era autônomo. Confiado nos músculos, sabia que ninguém poderia detê-lo, aonde quer que seu coração apontasse ele tinha condições suficientes para ir, ninguém poderia pará-lo. Apesar de agraciado com uma força tal capaz de deter o inimigo, Sansão era dominado pelos próprios desejos, pelos próprios instintos, e todos lhe pareciam muito justos. Em sua breve história sabemos que se apaixonou ao menos três vezes por três mulheres diferentes e se permitiu viver todos esses amores.

Sansão era o que entendemos hoje por um partidão. É o cara que tá na igreja, afinal, Sansão era israelita, integrante do povo escolhido de Deus. É o cara que tinha um ministério entre o povo, estava de frente, era respeitado e conhecido. Filho de uma mulher anteriormente estéril, agraciada com um filho, seus pais viram e falaram com o Anjo do Senhor (uma expressão que pode se referir ao próprio Jesus!); filho de crente, nascido debaixo de promessa. Mas não só isso. Sansão é bonito, alto, forte, tem postura ou como dizem uns "o cara tem presença". Sansão tem "atitude de homem". Aquela "atitude de liderança", olhar firme, voz grossa, gestos másculos, anda "feito macho". Sansão tem toda a pompa de um homem capaz de liderar um lar, utilizando seus longos e fortes braços a fim de prover proteção e alimento, desde carne até mel de abelha colhido diretamente da colmeia. A mulher que se casar com Sansão tem sorte, poderíamos dizer. Se sentirá protegida, ninguém terá coragem de invadir sua casa ou desrespeitá-la, seus filhos serão bem nutridos, e no álbum de família constará aquele bonitão. Sansão é o esteriótipo do macho alfa. E Sansão dá errado em todas as suas empreitadas românticas.

Muitas gerações se passam até que lá em Roma surge José. José é carpinteiro. Não sabemos se seus cabelos eram grandes, se seus ombros eram largos, qual era sua altura ou a proeminência do seu bíceps. Não sabemos se ele era bonito a ponto de chamar atenção das mulheres, nem se tinha um andar, uma voz, um jeito, uma postura, uma atitude de macho alfa à lá Sansão. De José sabemos que era carpinteiro. Que amava Maria. Que era um homem justo; homens justos na Bíblia são aquelas pessoas que possuem o firme propósito de obedecer ao Senhor, não perfeitos em seus caminhos, não santarrões. Sabemos sobre José que ao invés de encher a cara de vinho ou descarregar a desolação de um homem supostamente traído, indo à praça pública gritar aos ouvidos de quem estivesse por lá "apedrejem essa mulher, ela me traiu às vésperas do casamento", José foi para casa e teve insônia ao pensar em sua noiva grávida. Sabemos que José teve um sonho, o Senhor falou com ele e ele decidiu obedecer. Não temos informação sobre seu biotipo mas sabemos o bastante sobre seu caráter. José casou-se com Maria e não teve relações sexuais com ela até o nascimento de Jesus, assumindo o papel de esposo e pai no que concerne ao cuidado, proteção e provisão. Tomou Maria como esposa não porque lhe era conveniente, nem porque estava deslumbrado com seu beleza a ponto de não conseguir conter seus desejos, nem porque Maria chorou, implorou, convenceu, manipulou emocionalmente aquele rapaz. A decisão de José foi fruto de obediência ao Senhor. O coração de José não outorgava autonomia, mas submissão a Deus, e é nisso que consiste sua capacidade de liderança. É aqui onde se baseia a confiança de que José seria um bom esposo e pai. José assumiu a vergonha de casar-se com uma jovem grávida porque confiou em Deus e obedeceu a Ele.

Ler a história de Sansão é encarar nossa lascívia corrente. É a denúncia do desejo desenfreado de uma geração que confunde deslumbramento com amor. A história de Sansão está ornamentada com sensualidade, a história de José é o amor encarnado. A história de Sansão está marcada por mulheres manipuladoras que falam demais ao longo da narrativa. A história de José contém uma única mulher que abre a boca para glorificar o nome do Senhor, e que no meio da dúvida, do medo, da crise, busca abrigo não na casa de amigas jovens, mas na casa de uma prima idosa e piedosa, escolhida para ser mãe de João Batista. A história de Sansão é desenhada pelas escolhas ruins de um menino no corpo de um homem, incapaz de liderar o próprio coração, incapaz de submeter suas escolhas amorosas aos princípios do Deus de Israel. A história de José é a narrativa de um homem manso o suficiente para liderar uma família no meio da crise, servo o bastante para criar o Servo maior de todos, tão submisso a Deus a ponto de ter condições de encabeçar amorosamente um lar. A história de Sansão é definida por decisões autônomas dele em direção às mulheres. A história de José é marcada por decisões que José e Maria tomam no íntimo de seus quartos, diante de Deus. Essa é uma história sobre José e Maria, mas é muito mais sobre José e o Pai e sobre Maria e o Pai.

Por algum motivo muitíssimo esquisito insistimos em definir "homem de verdade" à luz de Sansão, à luz do visível a olho nu, à luz da beleza midiática e da lascívia. Como se um homem de voz empostada fosse capaz de conduzir uma família em segurança e como se o tamanho do bíceps definisse a disposição para proteger e guardar uma prole. Aqui não se faz uma apologia à destruição dos esteriótipos, como se eles não pudesse ajudar a gente na hora de tomar decisões evitando gastar tanta energia; esteriótipos são úteis, embora não sejam perfeitos. A tentativa é de lançar luz sobre algo esquisito: o fato de que na narrativa bíblica temos superado o esteriótipo do macho alfa valentão. Não porque é ruim ser bonito, levantar ferro e falar grosso, mas porque essas coisas não definem a boa performance conjugal e paterna. A expectativa foi elevada: é uma questão de disposição interna, de postura no meio da crise, de atitude quando o próprio nome e a própria reputação estão em jogo. Sansão poderia ter forçado ser recebido em uma hospedagem na força do próprio braço quando Maria estivesse para dar à luz, José conseguiu uma caverna junto dos animais para abrigar a família. Sansão morreu como aquele que matou os príncipes filisteus derrubando com o braço as colunas do templo pagão, um heroi. José era um homem da família, morreu como José, o carpinteiro; comum e nem um pouco heroico. Ambos cumpriram sua missão. Sansão consta em Hebreus 11. Celebramos a vida de José todo Natal. Ambos foram instrumentos nas mãos de Deus mas um era movido pelo o que via, o outro era movido por um firme propósito de obedecer. Um nos aponta um esteriótipo saudável de homem, esposo e pai, o outro falhou miseravelmente nisso, e por algum motivo insistimos em depositar esperança nele.

Não sobre o que se vê, é sobre um coração manso e submisso, irremediavelmente disposto a obedecer ao Senhor e ao Senhor somente. 

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