Teologia boa para dias ruins
Na noite do domingo para a segunda-feira entraram na igreja da qual faço parte e levaram nossa televisão. Um equipamento realmente excelente utilizado nas atividades de ministério principalmente com crianças e adolescentes. Não foi a primeira vez em que fomos violados em nossos bens, houve uma vez em que durante um culto em dia de semana fomos assaltados...
Não sei se o que senti ontem pode ser caracterizado como uma justa indignação cristã. Tenho mais segurança em afirmar que senti frustração, raiva, uma sensação terrível de violação, somado a isso pensamentos homicidas, passando por cenas de estrangulamento usando meu próprio braço, mesmo sendo inapta a fazer um mísero marinheiro (ainda!).
Lembro de quando era criança brigar demais com um de meus irmãos - difícil dizer quem era mais encrenqueiro, embora possamos concordar ser ele, claro. Ao atingir uns picos de raiva minha reação era de partir pra cima dele, com o dobro do meu tamanho e 4 anos mais velho que eu. Sem ter noção do perigo, minha raiva era descarregada assim. Eis que o velho homem brota das cinzas e denuncia em mim aquela garotinha adepta a resolver situações na base da paulada, quando a língua ferina não tinha dado conta da situação. Não fui uma criança surrada pelos pais, nem cresci em um ambiente familiar de violência, nem nunca apanhei das pessoas que cuidaram de mim, muito pelo contrário, apesar da criança cabulosa sempre fui bem cuidada e amada por todas elas (foram muitas porque a gente dava trabalho demais, misericórdia). Não, essa não é uma reação sociológica e psicologicamente explicada por disfunções familiares. Era só um problema de ira mesmo. Essa coisa pecaminosa agarrada ao meu coração pecador tão distante do coração paciente, bondoso e misericordioso do meu Senhor. Isso é uma partezinha do testemunho de uma pessoa nascida em um lar cristão, educada nas práticas devocionais, frequentadora assídua da igreja, filha de um casal envolvido do pé à cabeça no ministério pastoral. Sim, filhos de crentes precisam de conversão, eu precisava conhecer a Cristo também!
Situações como a de ontem me fazem pensar no tipo de gente perdida que eu era, entregue a minha própria carnalidade, ira e desespero. Um tipo de gente que precisava urgentemente de salvação, reconciliação e esperança. Situações como a de ontem me jogam no bueiro onde vive a Hadassa sem Jesus, e só uma boa teologia pra me puxar de lá, agarrada pela cintura em uma corda forte o suficiente. Tal corda diz respeito a coisas importantes recebendo um feixe forte de luz emitida em situações como a de ontem:
1. Minha condição humana decaída diante de um Deus infinitamente misericordioso capaz de quitar minha dívida com o próprio sangue. Meu misto de sensações capaz de roubar a paz e de fazer minha mente duvidar. Meu ímpeto de aplicar justiça com as próprias mãos denunciando minha falta de fé na justiça do próprio Deus que a Seu tempo ajustará todas as coisas conforme a Sua vontade.
2. A igreja é do Senhor e aquela televisão furtada também! Não é tanto uma questão de sistemas de segurança inibidores de assalto, afinal, se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela (Salmo 127:1). Também não é porque o Senhor não estava suficientemente atento, sabemos que não dormirá o guarda de Israel (Salmo 121:4). Está muito mais próximo do caráter paciente de um Deus deixando-se lesionar pelos homens. O Jesus que disse e ao que te tirar a capa, não impeças de levar também a túnica (Lucas 6:29) está presente e a Igreja não é nada senão o Seu próprio corpo sujeita ao Seu caráter. Ao levarem algo da Igreja levam algo do próprio Jesus, posso concluir isso com um sonoro: a televisão era dEle, Ele que lute!
3. Coisas ruins acontecem e isso não deveria me impressionar, afinal, a Igreja nunca prometeu um lugar bom e seguro no mundo. A promessa de progresso, segurança e felicidade pertence aos revolucionários franceses, aos filósofos iluministas e aos reformadores sociais modernos. A Igreja manteve o alerta de Jesus: vocês vão ter aflições (João 16:33). Por que minha surpresa? O mundo não é bom, por que eu deveria esperar que fosse justo, correto e seguro? Não justifico esse tipo de mazela pelas diferenças sociais, pela desigualdade de renda e acesso a recursos, nem pelo "capitalismo corruptor das relações humanas". O mundo já era mau, perverso, injusto e inseguro em Roma há 2000 anos, o veredito de Jesus pertence a uma dimensão caída imersa em pecado, não a um sistema social, político e econômico local; é a condição permanente do mundo.
4. Se Deus permitiu tal furto, quem sou eu para estar mais indignada que Ele? Não seria Ele mesmo capaz de guardar Suas próprias coisas? Mas então, sabendo Ele o que fazemos com aquela televisão, os fins de educação e apoio ao trabalho local, o uso cuidadoso e o investimento alto feito nela, por que Ele não impediu o furto? Por que um Deus bom permite que coisas ruins aconteçam a Sua própria Igreja? Bem, quem sou eu para sondar a mente do Senhor? Onde eu estava quando Ele fez a Ursa Maior, o Órion e as Plêiades? (Jó 9:9).
5. O Senhor não é movido por ira contra as pessoas, apesar de ser completamente bom, santo e justo. O Senhor ama as pessoas, inclusive aquelas completamente imersas no pecado - no caso, a raça humana inteira! Ele odeia o mau na gente e por isso insiste em nós. Ele ama a criatura que furtou aquela televisão e quer salvá-lo, reconciliá-lo Consigo e abrir seus olhos para uma vida significativa e justa diante de Deus. Veja só, a plantinha que deu sombra a Jonas era do Senhor, Ele a fez nascer e Ele mesmo a matou. A televisão também era do Senhor, Ele nos abençoou para ser possível pagá-la e utilizá-la, e Ele permitiu que a levassem. A planta não pertencia a Jonas, nem a televisão a mim. Mas Deus se importava com Nínive e era com Nínive que Jonas deveria se importar, por mais sangrenta e violenta que Nínive fosse. Não haveria Ele de ter pena de Jardim Fragoso como teve de Nínive? (Jonas 4). Hadassa, há uma boa razão para você ficar com tanta raiva assim? (Jonas 4:4), afinal, a Sua ira de um breve momento não passa, mas o Seu amor permanece para sempre (Salmo 29:5). Se a ira dEle passa, a minha não deveria se prolongar.
6. Deus sabe de tudo. Eu não sei nada. Eu posso descansar em Quem criou e sustenta todas as coisas com o poder da sua palavra (Hebreus 1:3). Ele me deu a Sua paz (João 14:27), portanto, não preciso ficar aflita, posso tão somente orar a respeito de tudo (Filipenses 4:6), posso abrir meu coração e contar a Ele isso que meu deixou triste e angustiada (Salmo 142:2), e seguir em frente alegre, alegrando-me em quem Deus é (Filipenses 4:4), enchendo minha mente com todas aquelas coisas capazes de gerar esperança, isto é, o grande amor de Deus, a misericórdia inesgotável dEle, a sua grande fidelidade e sua bondade (Lamentações 3:21-25).
Amém.
Não sei se o que senti ontem pode ser caracterizado como uma justa indignação cristã. Tenho mais segurança em afirmar que senti frustração, raiva, uma sensação terrível de violação, somado a isso pensamentos homicidas, passando por cenas de estrangulamento usando meu próprio braço, mesmo sendo inapta a fazer um mísero marinheiro (ainda!).
Lembro de quando era criança brigar demais com um de meus irmãos - difícil dizer quem era mais encrenqueiro, embora possamos concordar ser ele, claro. Ao atingir uns picos de raiva minha reação era de partir pra cima dele, com o dobro do meu tamanho e 4 anos mais velho que eu. Sem ter noção do perigo, minha raiva era descarregada assim. Eis que o velho homem brota das cinzas e denuncia em mim aquela garotinha adepta a resolver situações na base da paulada, quando a língua ferina não tinha dado conta da situação. Não fui uma criança surrada pelos pais, nem cresci em um ambiente familiar de violência, nem nunca apanhei das pessoas que cuidaram de mim, muito pelo contrário, apesar da criança cabulosa sempre fui bem cuidada e amada por todas elas (foram muitas porque a gente dava trabalho demais, misericórdia). Não, essa não é uma reação sociológica e psicologicamente explicada por disfunções familiares. Era só um problema de ira mesmo. Essa coisa pecaminosa agarrada ao meu coração pecador tão distante do coração paciente, bondoso e misericordioso do meu Senhor. Isso é uma partezinha do testemunho de uma pessoa nascida em um lar cristão, educada nas práticas devocionais, frequentadora assídua da igreja, filha de um casal envolvido do pé à cabeça no ministério pastoral. Sim, filhos de crentes precisam de conversão, eu precisava conhecer a Cristo também!
Situações como a de ontem me fazem pensar no tipo de gente perdida que eu era, entregue a minha própria carnalidade, ira e desespero. Um tipo de gente que precisava urgentemente de salvação, reconciliação e esperança. Situações como a de ontem me jogam no bueiro onde vive a Hadassa sem Jesus, e só uma boa teologia pra me puxar de lá, agarrada pela cintura em uma corda forte o suficiente. Tal corda diz respeito a coisas importantes recebendo um feixe forte de luz emitida em situações como a de ontem:
1. Minha condição humana decaída diante de um Deus infinitamente misericordioso capaz de quitar minha dívida com o próprio sangue. Meu misto de sensações capaz de roubar a paz e de fazer minha mente duvidar. Meu ímpeto de aplicar justiça com as próprias mãos denunciando minha falta de fé na justiça do próprio Deus que a Seu tempo ajustará todas as coisas conforme a Sua vontade.
2. A igreja é do Senhor e aquela televisão furtada também! Não é tanto uma questão de sistemas de segurança inibidores de assalto, afinal, se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela (Salmo 127:1). Também não é porque o Senhor não estava suficientemente atento, sabemos que não dormirá o guarda de Israel (Salmo 121:4). Está muito mais próximo do caráter paciente de um Deus deixando-se lesionar pelos homens. O Jesus que disse e ao que te tirar a capa, não impeças de levar também a túnica (Lucas 6:29) está presente e a Igreja não é nada senão o Seu próprio corpo sujeita ao Seu caráter. Ao levarem algo da Igreja levam algo do próprio Jesus, posso concluir isso com um sonoro: a televisão era dEle, Ele que lute!
3. Coisas ruins acontecem e isso não deveria me impressionar, afinal, a Igreja nunca prometeu um lugar bom e seguro no mundo. A promessa de progresso, segurança e felicidade pertence aos revolucionários franceses, aos filósofos iluministas e aos reformadores sociais modernos. A Igreja manteve o alerta de Jesus: vocês vão ter aflições (João 16:33). Por que minha surpresa? O mundo não é bom, por que eu deveria esperar que fosse justo, correto e seguro? Não justifico esse tipo de mazela pelas diferenças sociais, pela desigualdade de renda e acesso a recursos, nem pelo "capitalismo corruptor das relações humanas". O mundo já era mau, perverso, injusto e inseguro em Roma há 2000 anos, o veredito de Jesus pertence a uma dimensão caída imersa em pecado, não a um sistema social, político e econômico local; é a condição permanente do mundo.
4. Se Deus permitiu tal furto, quem sou eu para estar mais indignada que Ele? Não seria Ele mesmo capaz de guardar Suas próprias coisas? Mas então, sabendo Ele o que fazemos com aquela televisão, os fins de educação e apoio ao trabalho local, o uso cuidadoso e o investimento alto feito nela, por que Ele não impediu o furto? Por que um Deus bom permite que coisas ruins aconteçam a Sua própria Igreja? Bem, quem sou eu para sondar a mente do Senhor? Onde eu estava quando Ele fez a Ursa Maior, o Órion e as Plêiades? (Jó 9:9).
5. O Senhor não é movido por ira contra as pessoas, apesar de ser completamente bom, santo e justo. O Senhor ama as pessoas, inclusive aquelas completamente imersas no pecado - no caso, a raça humana inteira! Ele odeia o mau na gente e por isso insiste em nós. Ele ama a criatura que furtou aquela televisão e quer salvá-lo, reconciliá-lo Consigo e abrir seus olhos para uma vida significativa e justa diante de Deus. Veja só, a plantinha que deu sombra a Jonas era do Senhor, Ele a fez nascer e Ele mesmo a matou. A televisão também era do Senhor, Ele nos abençoou para ser possível pagá-la e utilizá-la, e Ele permitiu que a levassem. A planta não pertencia a Jonas, nem a televisão a mim. Mas Deus se importava com Nínive e era com Nínive que Jonas deveria se importar, por mais sangrenta e violenta que Nínive fosse. Não haveria Ele de ter pena de Jardim Fragoso como teve de Nínive? (Jonas 4). Hadassa, há uma boa razão para você ficar com tanta raiva assim? (Jonas 4:4), afinal, a Sua ira de um breve momento não passa, mas o Seu amor permanece para sempre (Salmo 29:5). Se a ira dEle passa, a minha não deveria se prolongar.
6. Deus sabe de tudo. Eu não sei nada. Eu posso descansar em Quem criou e sustenta todas as coisas com o poder da sua palavra (Hebreus 1:3). Ele me deu a Sua paz (João 14:27), portanto, não preciso ficar aflita, posso tão somente orar a respeito de tudo (Filipenses 4:6), posso abrir meu coração e contar a Ele isso que meu deixou triste e angustiada (Salmo 142:2), e seguir em frente alegre, alegrando-me em quem Deus é (Filipenses 4:4), enchendo minha mente com todas aquelas coisas capazes de gerar esperança, isto é, o grande amor de Deus, a misericórdia inesgotável dEle, a sua grande fidelidade e sua bondade (Lamentações 3:21-25).
Amém.
Comentários
Postar um comentário