Do que um discípulo mais precisa

A narrativa de João 21 é pra mim uma das mais comoventes narrativas bíblicas. Sou grata pela sensibilidade de João em escrever e em nos fazer sentir nos pelinhos do corpo as emoções vividas ali. Depois do dia triste da morte cruel de Jesus sobre o madeiro e dos discípulos terem fugido de medo, João nos narra uma das últimas aparições do Filho de Deus, ressurreto. Jesus morreu, como havia dito, ficou três dias morto e ressuscitou; mas nada agora era como antes. Apesar de aparecer diversas vezes em diversas ocasiões diferentes, não vemos um coração triunfalista nos discípulos aqui no capítulo 21, vemos discípulos arrasados. Tão arrasados a ponto de decidirem novamente pelas redes. Pedro foi afogar as mágoas no mar, fazer o que ele sabia fazer bem, o tipo de trabalho técnico, onde ele não decepcionaria ninguém; Pedro foi pescar e os outros foram atrás. Imagino como aquela pesca deve ter sido esquisita. Não consigo vê-los sorrindo nem conversando muito, imagino cada um fazendo sua parte na tarefa (seja lá que parte era essa) com o único objetivo de voltar com peixe para a praia. Imagino rapazes aflitos e saudosos, envergonhados e decepcionados com o próprio comportamento idiota de abandonar o Rabi, o Filho de Deus, a fonte das palavras de vida eterna. Naquela noite não teve peixe. Eles voltam para o mar e imagino a sensação de "nem Jesus, nem peixe" assombrando a paz quase morta deles. Há alguém na praia. Esse alguém faz um pergunta constrangedora "filhos, pegaram muito peixe?". Diante da resposta negativa vem a sugestão "atirem a rede do lado direito do barco"; bem, funcionou. Era o Mestre. João sacou logo. Pedro não se aguentou e nadou na frente de todo mundo até a praia. Imagino a energia correndo em seu corpo e uma completa falta de palavras na língua. Ele, imagino, não sabia o que iria dizer, embora tivesse a sensação de que deveria dizer algo. Com o peito atolado e pesado, respiração ofegante, se aproxima e senta, nem ao lado, nem em frente, era esquisito encará-lo e indigno sentar perto demais. Escolhe um lugar mais à diagonal onde pode olhar para aquele homem dono da fogueira. Aquele que tem peixe e pão. Os demais ouviram João dizer "é o Senhor", inquietos e sem saber exatamente como será essa reunião, decidem vir mais devagar, não menos constrangidos. Imagino todos sentados, o sol ensaia aparecer já, a luz é bonita e o ambiente é, de algum jeito, acolhedor.  Jesus não inicia uma pauta de reunião, ele pede mais peixes e continua assando pão. Então, convida para um lanche que ele mesmo preparou, com os próprios pães e peixes. Bem, ele quer servir seus rapazes. Jesus os convida a comer. Jesus não tem pressa. Jesus sabe que aqueles meninos ali só precisam de uma única coisa: dele mesmo. Jesus não é o CEO da igreja a ser fundada, ele é o amigo sentado à beira da praia, assando peixe e pão numa fogueira, enchendo a boca e o ar para falar de amor. "Pedro, você me ama?".  Não um Pedro, você se arrepende? Ou um Pedro, por que você me traiu depois de tudo? Ou ainda Pedro, eu não sei se posso confiar em você agora. Não. "Pedro, você me ama?", essas são as palavras escolhidas. Pedro precisava de Jesus e da oportunidade de reafirmar seu amor imperfeito e vacilante. Pedro comeu da comida do Filho de Deus, foi acolhido na doce, tão tão doce companhia de Jesus e teve a oportunidade de dizer "tu sabes que eu te amo". Jesus sabia que somente Ele era necessário e suficiente, Ele era aquilo de que os meninos sentiam falta, Ele era o elo de ligação daquele grupo, Ele preencheu os espaços vazios e forneceu significado durante três incríveis anos, portanto, Ele deu de si mesmo àqueles rapazes inapropriados. Por isso ele sabia a coisa certa a dizer para finalizar aquele encontro "Siga-me".

Não é assim com a gente também? É sim.

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