Pastorado feminino é coisa de Deus?
Não, não quero ser pastora, nem creio ser vocacionada para tal, nem creio que é minha função pastorear parte das ovelhas de Jesus. Mas a polêmica está posta, mais em murmúrios e conversas de corredor que em uma assembleia de cristãos maduros dispostos a discutir com seriedade, abertura e em espírito de irmandade tal assunto. Espero com o que se segue conseguir contribuir um pouco com tal discussão cujo fim não enxergo no horizonte.
Analisar, compreender e julgar o 'espírito' das coisas faz parte da prática cristã, fazemos isso a fim de identificar se tal coisa procede ou não de Deus. Isso não é novo. Nem as controvérsias religiosas o são. Vejamos o caso dos apóstolos sendo julgados por causa da propagação do Evangelho de Jesus Cristo:
Ouvindo isso, eles ficaram furiosos e queriam matá-los. Mas um fariseu chamado Gamaliel, mestre da lei, respeitado por todo o povo, levantou-se no Sinédrio e pediu que os homens fossem retirados por um momento. Então lhes disse: "Israelitas, considerem cuidadosamente o que pretendem fazer a esses homens. Há algum tempo, apareceu Teudas, reivindicando ser alguém, e cerca de quatrocentos homens se juntaram a ele. Ele foi morto, todos os seus seguidores se dispersaram e acabaram em nada. Depois dele, nos dias do recenseamento, apareceu Judas, o galileu, que liderou um grupo em rebelião. Ele também foi morto, e todos os seus seguidores foram dispersos. Portanto, neste caso eu os aconselho: deixem esses homens em paz e soltem-nos. Se o propósito ou atividade deles for de origem humana, fracassará; se proceder de Deus, vocês não serão capazes de impedi-los, pois se acharão lutando contra Deus".
Atos 5:33-39
Como disse a ex-presidente da república Dilma Rousseff: “nós seremos julgados pela História”. Pois então. Como cristã, creio que a História não caminha ao acaso, não é fruto de decisões aleatórias e nem tem mil e uma possibilidades de desfecho. Como costumo dizer, não estamos no caos, não estamos propensos ao acaso. Habitamos um terreno criado e mantido pelas mãos de um único Deus, infinito - para frente e para trás - pessoal, racional, que fala, que age, que ouve, que conduz a História e que não deixa o mal impune. Não por algum outro motivo a não ser pelo o fato de que Seu caráter santo e justo não convive com o mal. Sendo assim, se tal movimento de ordenação feminina ao pastorado ‘não é coisa de Deus’, não posso chegar a outra conclusão senão de que Deus, Ele mesmo, não eu não eu, fará justiça ao seu próprio nome e tal movimento se encerrará. Reitero, sob a palavra de Gamaliel, não pelo esforço humano, nem por perseguição institucional, mas por obra do Senhor que é zeloso consigo mesmo e não se deixa profanar.
Veja bem, falo disso porque aparentemente não estamos muito certos sobre o ponto abordado. O que temos, nós das igrejas históricas, é uma prática estabelecida que, para bem falar a verdade, nunca é muito bem esclarecida em nossas aulas de Escola Bíblica. Tendo crescido dentro da igreja posso dizer que esta sempre foi uma prática não discutida à exaustão, não precisávamos fazê-lo. Para muitos de nós é razoável, e com poucos argumentos ficamos felizes, seguindo a vida. Não posso dizer que fui infeliz crescendo nesse meio, isso nunca deu nó na minha cabeça, mas tem dado nó na cabeça de muitas irmãs e por isso torna-se relevante discutir tal tema com honestidade e profundidade. Repito: honestidade e profundidade.
Agora, há um segundo ponto que pode ser posto aqui, ainda pensando no questionamendo “isso é coisa de Deus?”. Visitemos o texto de Paulo aos Gálatas, capítulo 5, versículos 19 ao 23:
“Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti, que os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei.”
Mostre-me os frutos e saberemos se isso vem da presença de Deus ou da ausência dele. Podemos concluir assim, não podemos? Veja bem, havemos de perguntar: qual fruto tais ministérios sob liderança de pastoras estão produzindo? Algum leitor pode se lembrar do caso das duas mulheres que abandonaram seus respectivos esposos e se uniram em casamento, tornaram-se pastoras e pregam aos 4 ventos o amor livre “porque Deus é amor”. Sim, também me lembro delas. Citei o caso para que o leitor abandone agora a ideia de que falo a partir de um lugar ingênuo, ou que ignoro tais situações. Não, não ignoro. Mas um fato é que, mesmo igrejas lideradas por pastores lidam com os pecados dos seus membros, pessoas que frequentam os cultos semana após semana e negam a fé em sua prática diária. No entanto, julgamos a saúde de um ministério muito mais pelo o que sai do púlpito, o que sai em forma de ensino, não pelo o que os ouvintes fazem com aquilo depois - isso fica em segundo plano.
Sem dúvida há pastores promovendo coisas do inferno, inclusive ódio a pessoas de posição política diferente da deles, lembremos, ou mesmo idolatria quando falam mais sobre ganhar dinheiro e prosperidade financeira que sobre dependência de Deus e serviço ao outro, não é mesmo? Pode soar rude e me corrijam se estiver errada, mas, concluo que: os frutos não dependem do gênero.
Não quero com isso dizer que podemos abolir os gêneros, nem que o gênero não importa para Deus, de fato importa, Ele os fez e, segundo Jesus, só os abolirá na segunda vinda de Cristo. Pensando nisso há algo que julgo relevante a ser acrescentado.
Há mulheres que ouviram o chamado pastoral, sentem-se vocacionadas para tal. Qual régua vamos usar para identificar se tal chamado ou vocação é uma farsa? Talvez não uma farsa, mas um engano ou má interpretação do que Deus realmente quis dizer? Se aplicarmos as regras aplicadas aos homens, basta que a mulher apresente um trabalho na igreja local desenvolvido com zelo e responsabilidade e claro, alguém disposto a pagar a mensalidade do seminário da moça. Indicadores: gênero, trabalho, investidor. Garanto que os dois últimos são visto à olho nu em abundância, nosso conflito é com o primeiro. Não saia daqui com o famigerado “não é bíblico”, por gentileza, volte e reconsidere os dois pontos iniciais, nem que seja para que a partir deles um argumento mais robusto seja construído.
Para finalizar, ainda há algo. Esse é meu ponto favorito da discussão. O ministério pastoral, da forma como tem que ser feito, não é tarefa fácil, nunca foi, e se, um dia, tornar-se fácil é porque tornou-se falso. Exige entrega, responsabilidade, vida intensa de devoção, serviço e mais umas coisas que se você não sabe é porque não anda perto o suficiente do seu pastor. O fato é que tal carga aos homens foi dada. A expressa responsabilidade do cuidado, desde o Éden, passando pelos pelos pais da fé, pelos profetas, pelos reis de Israel, pelos juízes...
- ah, mas Débora…
- eu não queria ser a pessoa que entrega um recado de Deus ao guerreiro, tal guerreiro duvida da minha palavra e ainda me põe para ir à guerra com ele!
- ah, mas ela sabia que Deus estaria com ela
- irmã, nós também sabemos que o Senhor nos acompanha momento a momento de nossos dias, nem por isso gostamos de andar em ruas escuras e esquisitas a noite, nem ficamos insistindo para sermos missionárias em países cuja perseguição à nossa fé resulta em decapitação de cristãos. Não sejamos levianas, tudo bem?
foi entregue aos homens. “Adão foi criado primeiro, depois Eva” I Timóteo 2:13. Aos homens foi dada a expressa responsabilidade pelo cuidado da Igreja de Cristo no Novo Testamento bíblico, assim como a expansão do Evangelho aos gentios, por meio de Paulo. Às mulheres não. Mas também, devemos dizer, não há um só versículo que as impeça de fazê-lo. Não há uma só lei que impeça mulheres de irem à guerra, mas nada que as obrigue como aos homens. Percebem? Podemos até mesmo defender que as mulheres podem exercer o ministério pastoral, desde que debaixo da autoridade do esposo, mas ainda assim não podemos dizer que biblicamente estão impedidas. Assim como a Bíblia não impede o estudo da antropologia, ou das línguas mortas, ou a procura de água em outros planetas, embora também não recomende os tais. Podemos até considerar a recomendação expressa da Filosofia, das Artes, da Oratória e da Jardinagem, mas não da Engenharia de Trânsito.
Pois bem, finalizando de verdade, às mulheres não foi dada a expressa responsabilidade, no entanto, elas se voluntariaram, e tenho visto que Deus as tem aceito e em muitos casos firmado seu ministério e vocação. “Se Deus não chamou expressamente, não é válido”. Alguém diria. Bem, nesse caso, teríamos de nos perguntar se o ministério de Isaías foi de fato válido. Voltando: apesar de voluntárias, não é delas que Ele irá pedir contas, e sim aos homens. Elas irão prestar contas do trabalho feito, mas aos homens maior será a cobrança. Espero que tenha ficado claro esse ponto.
Portanto, penso, esse não é tempo de barrar mulheres, mas sim de como Batistas - falo de dentro de um contexto, afinal - nos perguntarmos: onde estão os homens? Será a crescente demanda ao pastorado feminino uma consequência do movimento feminista dentro da igreja, ou será fruto da omissão masculina, da negação à vocação inerente de cuidado, sendo toda a força e energia direcionadas a ganhar dinheiro, fazer fortuna, ter uma carreira e tornar-se homem, passando de largo, de fato sacrificando a vocação ao ministério pastoral? Prossigamos discutindo.
E enquanto discutimos não peçam das mulheres que ao enxergar uma necessidade fiquem deitadas em ‘berço esplêndido’ ou em 'espírito de oração'. Elas irão orar, todo o tempo. Aliás, quando aprendemos que Jesus nos ouve, acreditem, não paramos de falar um só segundo e às vezes Ele precisa dizer 'filha, faz silêncio, Eu quero falar'. Mas iremos agir, sim, iremos agir enquanto oramos e oraremos enquanto fazemos. Porém, penso, agir também passa por aprender a educar nossos meninos melhor, criá-los para serem homens que amam, servem, oram, ouvem, trabalham, decidem, perdoam, pedem perdão e andam em submissão (não a nós) a Cristo. Precisamos criar verdadeiros guerreiros, valentes e dóceis ao mesmo tempo. Homens que sabem a que vieram a esse mundo e não fogem disso. Nós, homens e mulheres, pais agora e pais futuros, precisamos voltar a Cristo e parar de ferir-nos uns aos outros em nome da reputação de nossa denominação ou em nome da nossa ‘livre interpretação’ das Escrituras.
Creio em um Deus que nos perdoará do possível engano de ter ordenado mulheres ao ministério pastoral, quando tal engano ocorrer na tentativa de responder, em obediência, à Grande Comissão. Mas, esse mesmo Deus, nos pedirá contas da falta de amor, cuidado, graça e misericórdia com essas mesmas mulheres, caso as tratemos com desdém e desonestidade intelectual na discussão de um tema que as toca. Errar porque amamos demais é preferível do que errar fazendo justiça com as próprias mãos. A violência e crueldade estão impregnados em nós desde o fatídico dia da Queda, o amor e misericórdia não, lutemos mais por esses, aqueles sempre estarão à nossa porta, não precisamos convidá-los.
Minha conclusão acerca desse tema está longe de ser profunda. Por hora estou convencida de que almejar ao espiscopado é almejar uma excelente obra, porém, como mulher, não é minha função. Que os homens tomem seu lugar e exerçam seu papel de maneira digna da sua vocação. Ao não exercerem, nós, mulheres, excelentes estudiosas das Escrituras, treinadas pelo Espírito Santo no amor e na longanimidade, estaremos lá para corrigi-los, não porque temos autoridade sobre eles, mas porque as Escrituras têm. E diante de Deus somos iguais e chamados por Cristo a nos submetermos uns aos outros, em amor.
Livrai-me do legalismo que me afasta do Evangelho da Graça e da salvação por meio da fé e da fé somente. Em nome de Jesus, aquele que agradou completamente ao Pai, amém.
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