O Sherek saiu da floresta...

... e anda pelo campus da sua universidade.

Em uma oportunidade muitíssimo especial conversava com alunos do ensino médio sobre a experiência de ingressar em uma faculdade, melhor dizendo, conversava sobre os discursos proferidos por adultos, preocupados com nossa integridade física, mental e principalmente espiritual, após colocarmos os pés no ensino superior. Quase sempre são discursos de atenção, cuidado e prevenção. O ambiente acadêmico é pintado como um lugar de perdição, depravação, ambiente sem limites, perigoso e oposto a educação tão bem construída por nossos pais ou líderes espirituais. Somos enviados para esse lugar como a chapeuzinho vai em direção à casa da vovó, mas completamente ciente de que se encontrará com o lobo mau. Para uns, pode ser um tanto quanto amedrontador, para outros, é a possibilidade de um grito de liberdade (?), por encontrar o cenário perfeito para abdicar da fé, dos valores e costumes guardados pela família ou ambiente religioso. 

É triste pensar que quase nunca o ambiente acadêmico é visto como um local propício para a propagação do Evangelho da Graça. Triste pensar que jovens criados nos arraiais evangélicos durante toda a vida, são enviados para lá não como ministros do evangelho, filhos de Deus, servos de Jesus, prontos para explicar a qualquer um que perguntar a razão da sua fé, capazes de discipular novos crentes, habilitados para viverem no meio de uma geração que desconhece a pessoa, a obra e os ensinamentos de Jesus, sem caírem no vazio existencial de seus pares, ao contrário, prontos a viver empenhados em servi-los, aproveitando cada oportunidade para testemunhar de sua fé. Não, são enviados como peças frágeis que devem abster-se das más companhias, aprenderem a matéria, tirar boas notas - e a isso damos o nome de testemunho - conseguir um diploma, e assim, estar habilitados para um emprego, ou concurso, de preferência, garantindo um carro e um apartamento financiados. Configurando assim, esses tais, como jovens que conseguiram passar pela juventude sem sucumbir aos manjares do mundo.

Sem dúvida, havemos de convir que a educação religiosa precária no ambiente familiar contribui com esse cenário esquisito. Em algum momento, historicamente não sei quando, começamos a acreditar que a função da família na educação religiosa das crianças está unicamente associada a levar os pequenos à igreja uma vez por semana e deixá-los nas mãos dos professores e pastores. Todos ficam imensamente surpreendidos quando um jovem universitário 'abandona a fé', afinal, "o(a) garoto(a) foi criado(a) na igreja!".

Compreendemos que a precária educação familiar concernente a vida religiosa dos filhos, associada a, provável, precária educação religiosa de muitas igrejas locais, resulta em uma, quase certa, precária espiritualidade dos adolescentes e jovens. Estes, então, tornam-se, tão somente, assíduos frequentadores de igreja, com, quando muito, conteúdo moralista, e raso ou nulo relacionamento com a pessoa de Jesus Cristo e com o conteúdo bíblico. Não é difícil encontrar jovens que frequentam reuniões religiosas desde pequenos mas não possuem recursos precisos que consigam fundamentar e assegurar suas convicções diante de um ambiente hostil à fé. Diante do cenário perturbador, uns se isolam dos demais colegas universitários e até mesmo das discussões em sala, apegando-se a discursos que, na verdade, não entendem, mas garantem um mínimo de segurança emocional. Outros se jogam, mergulham de cabeça, encontrando ali algum significado para a própria existência, assumindo a comunidade religiosa como retrógrada, inflexível, distante das 'necessárias evoluções sociais'.

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