Não faz tanto tempo assim

Não faz tanto tempo assim, eu lembro. Lembro da desconfiança ao ler a Bíblia e da dificuldade em encontrar graça, amor, carinho, cuidado por parte daquele conhecido como Bom; o Deus dos judeus e o Deus dos cristãos. Um alguém de sobrancelhas juntas e baixas, punhos cerrados, lábios estreitos, olhos temíveis. Cheio de indignação justa, nunca pude negar. Ele sempre santo, completamente bom, perfeito em todas as suas atitudes e sem sombra alguma de má intenção. Eu, por outro lado, errante até mesmo na intenção de acertar. Falando besteira quando queria falar algo útil. Negando o bem na tentativa de corrigir alguém. Minha mente sabia que naquele Deus habitava o perfeito amor, Ele era o próprio amor, mas meu coração podia sentir uma fúria contida e eu me sentia esquisita.

Não podia negar um certo repúdio em relação a uns trechos da Santa Lei de Deus e minha completa incredulidade em relação a outros. Céus, como era difícil! Se Davi, aquele rei de Israel, compositor de salmos incríveis, sabia qual era a sensação de sentir prazer na Lei do Senhor, eu, definitivamente, não podia partilhar desse sentimento. Minha razão concordava com todos eles, com todos os perfeitos preceitos morais, pois sim, fazem sentido e, quando cumpridos, garantem a perpetuação e saúde da espécie humana; mas amar, amar e sentir prazer, já não era um tanto demais?

Toda obra necessária para trazer o homem a um relacionamento com o Criador só pode ser feita por Deus, disso eu sabia. Todo amor pela Lei de Deus também é trabalho dEle na gente; descobri mais tarde. Não posso amar e sentir prazer na Lei a menos que Jesus me habilite para isso. E o meio que Ele usa para realizar essa tarefa é relacionamento. Tudo no evangelho trata de relacionamento. Nada se faz na distância.

É impraticável vermos a beleza das palavras de Cristo sem termos Cristo. Ler a Lei de Deus sem Deus é como ler uma sentença de ruína contra si, diante de um tribunal inteiro que acusa e sente sede do nosso sangue, nem nós mesmos podemos servir de advogados de defesa, a não ser que tomemos a estrada do autoengano e tentemos nos convencer de que somos, de algum jeito, bons e merecedores de algum bem. No entanto, não há paz no autoengano; sabemos disso. Ler a Lei de Deus diante de Deus, é outra coisa. Passa pela honestidade de dizer ao Senhor: eu não entendo, eu não consigo partilhar desse sentimento de prazer, eu creio, Senhor, mas aumenta a minha fé. É ler o mistério da vida revelado em palavras simples, tão simples que parecem mentira, o tipo de palavra que aponta um caminho de saúde mental, em detrimento de nossa loucura, um caminho de amor e partilha, em lugar da inimizade, da guerra, da mesquinharia, aponta para a possibilidade do Infinito preencher nossa finitude e da nossa mente trabalhar sob parâmetros superiores e refinados, em detrimento de nossa racionalidade rasa. A Lei de Deus lida com o próprio Deus, é como uma mãe lendo um livro com o filho, antes ele só podia ver as imagens, era pouco, incompleto, mas a voz da mãe traz à tona a completude e, agora assim, a história parece muito mais interessante. 

A Lei de Deus é objetivamente boa e útil, mas só podemos amá-la se aprendermos antes a amar ao Senhor. É difícil amar aquela figura descrita no início dessa prosa, não poderia mesmo amá-la, afinal, se nem Deus for capaz de amar, é possível que haja em mim alguma habilitação para tal? Só posso amar se tiver a convicção de que sou amada - e só posso amar à medida do amor que recebo - então, serei habilitada a responder com amor a esse amor que me alcançou. Temo que muitos tenham dificuldade com aquela figura também. A boa notícia é que o Deus criador, mantenedor e redentor da vida não se parece com alguém de mau humor olhando com olhos acusadores; essa figura sou eu mesma contra mim mesma.

O Deus dono do mundo e da História tem urgência em nos salvar da guerra, da loucura, da confusão, do medo e nos trazer para a realidade do cuidado e providência dEle. É um Deus santo, justo, totalmente puro, completamente confiável, o tempo todo bom. A intenção dele é nos fazer viver dentro da realidade que Ele mesmo é. Posso, assim, lançar meu corpo, mente e alma, como quem salta em queda livre. Posso abrir mão de tudo, até mesmo de mim porque nEle habita a plenitude. E toda falta que, porventura, venha a sentir, Ele é capaz de suprir apenas direcionando os olhos dele para mim. 

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