Crônica de praia

Um dia quente, como todo dia é em Recife. Era folga de um ano pouco corrido do lado de fora e agitado, ansioso, nervoso, imparável, na minha mente inquieta e teimosamente preocupada. Eu te observei tirar o branco gélido do pedaço de cerâmica quadrada, que me lembrou do meu banheiro e das suas cerâmicas amareladas de velhas, banhadas a água sanitária. Sou incrédula, você sabe, não podia tirar-me de mim mesma e não ser também naquela hora, quando você prometeu só mostrar seu trabalho, sem nos obrigar a pagar por ele. Tudo bem. Para quem atravessa parte da cidade todos os dias, é comum ter de pegar as mercadorias dos ambulantes, sem compromisso, só para devolver depois, sem pagar por elas. Então esperei e observei seus dedos grossos, nada delicados, pintando borrões de tinta no pedaço de cerâmica, formando uma coisa desforme, sem sentido algum. Embora a mistura da tinta vermelha com a tinta amarela conseguissem entregar algo bonito. Cravei ali minhas expectativas e não esperei por nada mais, só pelo término de um quadrinho propondo algo abstrato, sem muita delicadeza e completamente dependente da minha imaginação para criar uma história sobre a cena não clara, nem óbvia - porque não haveria cena, afinal. Não sei se foi a miopia ou se foi a mente em devaneio que tirou minha concentração, quando me dei conta de que algo havia surgido ali. Não me lembro a ordem. As cores misturadas e sem forma em um instante pareciam com um céu de fim de tarde por trás de uma árvore. Depois com uma moça de saia branca; e você ganhou minha atenção. Agachado, mantendo o corpo firme sobre os pés e joelhos dobrados, segurando a pequena peça com uma das mãos apoiada pelo punho. Reparei na outra mão só agora, um instrumento do tamanho de uma agulha - de onde saiu isso? - aquela coisa teceu os limites da saia da moça na cena que você pintava. O suor pingava na areia seca, não dava nem conta de fazer umidade, o sol te fazia suar e consumia o suor da areia da praia, pela testa, pelo nariz e pelo braço que corria e era sugado pela gravidade. Desconfortável, não? Pensei. Enquanto seus dedos grossos cobriam o branco gélido com um azul bonito, escuro e vivo, nada delicado, de novo, seu dedo passava rápido de um lado ao outro como quem quer terminar aquilo logo. Do traço grosseiro do dedo maior de todos surgiu uma cabana à beira-mar e um caminho por cima do mar, iluminado com pequenas luzes ao longo do trajeto, isso tudo sob o trabalho daquele pequeno instrumento do tamanho de uma agulha, perdido entre seus dedos suados, constantemente secos naquele pano todo cheio de retalhos de tinta seca. Eu não poderia reproduzir esse casal pintado a traços finos e delicados, nem sei bem por onde você os iniciou, devia estar olhando para a pequena embarcação à vela parada em frente a cabana, pronta para traçar um destino até o outro lado da imagem onde uma queda d'água se apresenta majestosa debaixo de um céu alaranjado. O desprezo apressado diante de uns borrões grosseiros de tinta, com pretensão artística, transformou-se em dúvida. Pensei em quem sonha ser artista um dia e gasta suas manhãs com os olhos fitos em slides pré-fabricados, como aquela aula que me despertou inveja essa semana mesmo. Não era minha aula e me ressenti disso, aparentemente aqueles 10 alunos estavam aprendendo o ofício da arte, eu não. Mas agora, talvez, pensando melhor, eles também não; e talvez nem saibam disso. Um saber consagrado humilhado por um aprendizado de rua. Quanta ironia. O saber delicado e bruto de um rapaz, cuja arte emergiu da observação de outros artistas de rua, ou de praia, melhor dizendo, com cerâmica na mão e tinta à óleo, tecendo beleza em um pedaço gélido de coisa. Já vi isso antes; quando gente simples tem na boca, nas mãos e no abraço a capacidade de tecer beleza em um mundo arredio. Não se espera isso de gente sem instrução. Mas não foi no coração de pequeninos em conhecimento e pobres de dinheiro, que brotou fé em Jesus, o Cristo de Deus nascido em Nazaré?

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