São tempos de revolução. É necessário ser mulher.

Escrevo esse texto enquanto a professora faz a chamada, sua voz lenta e suas palavras espaçadas, são como soníferos na minha cabeça desacostumada a estudar no período da tarde. O texto que agora digito primeiro foi pensado, enquanto viajava do centro da cidade até a cidade universitária no início da tarde de hoje. O ônibus lotado, como de costume, foi palco de três atos de revolução social. Já conto.

Há uma senhora com uma tosse seca atrás de mim, ela bem que tenta mas não para de tossir. Um rapaz oferece sua garrafa de água, ela aceita e alivia a garganta irritada. Umas paradas depois, o rapaz espremido entre humanos e a porta do meio, segura firme a mão de uma senhora bem idosa que tenta descer as escadas o mais rápido possível. Na próxima parada, uma cadeira fica vaga, outro rapaz, próximo a mim, oferece o assento, eu digo 'não, obrigada!' e só então ele ocupa a vaga. Não que estivesse confortável em pé, mas passaria as próximas 6h sentada - não fosse pela crise de garganta da professora, que a convenceu a terminar a aula com 1h de antecedência. Fim da chamada. Reunião da turma para decidir representante. Calouros empolgados; já passei por isso.

Tomara que você não tenha se perdido na narrativa dos fatos agora, intencionalmente, embaralhados.

Ainda no ônibus, começo a pensar nas mulheres que formaram esses três rapazes, mãe, avó ou tia, não sei. Como eu sei que houve alguma mulher? Não sei. Só assumo a informação como verdadeira para continuar minha reflexão. Fico grata por essas sujeitas desconhecidas e lembro de um versículo que agora passou a fazer sentido prático pra mim:

"A mulher será salva pela geração de filhos"

Não salva porque sente dor de parto, não salva pelo árduo trabalho do cuidado materno, salva, porém, pela possibilidade de criar homens e através da educação, redimir as relações humanas. Mulheres capazes de criar homens com braços fortes o suficiente para proteger e servir, e coração manso. Firmes em convicções, inabaláveis em fé, disponíveis para toda oportunidade de serviço, persistentes e contentes durante esperas aparentemente longas demais, moderados, sóbrios, atentos e pa-ci-en-tes. Mulheres que salvam a vida de outras mulheres quando educam homens em todos os passos da virtude, da bondade, da justiça, da beleza. Essas mulheres estão fazendo revolução.

Não havia lei sobre a cabeça dos rapazes no ônibus de hoje, havia disposição servil e gentileza voluntária. Gentileza voluntária que não nasceu com eles, não poderia, estamos todos em guerra, caídos e deformados - imersos no lago denso do pecado. Mas que foi construída e eu, parcial que sou, puxando sardinha pro meu lado, gosto de pensar que foi construída por mulheres. Mulheres incansáveis no trabalho de redimir as relações. Como? Educando homens. É um tipo bonito de militância e me parece tão mais assertiva e duradoura.

Não muito depois, passa pela catraca uma garota com axilas mais peludas que as axilas dos meus irmãos. "Nesse calor desgraçado de Recife, como ela aguenta?" - foi a primeira coisa que pensei.

Voltei a pensar na revolução em curso que aquelas sujeitas desconhecidas estão empreendendo, fiquei feliz pelos símbolos e resultados da luta delas, expressos na gentileza voluntária daqueles rapazes.

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