Tragédias
Nessa dimensão onde existimos a tragédia não se faz rara. É diária, nos encontra, nos encurrala. É medonho e perturbador o inegável fato de termos de conviver com más notícias todos os dias. Embora esteja vividamente exposta, sem pretensão de esconder-se, ainda nos surpreendemos com elas, principalmente quando somos nós os protagonistas das más novas. "Por que comigo?" ainda nos perguntamos e sempre nos perguntaremos. "Por que com pessoas boas?" sempre será a interrogação posta sobre nossas cabeças diante de tragédias. Não são novas, nem invenções da modernidade. Antigas como a humanidade, a tragédia nos persegue. Não há história do homem sem a companhia constante, regular e incansável das tragédias. Lástima.
Perseguidos pelo perigo de maus ocorridos e perseguidores de problemas, eis nosso caráter duplo. Plantamos más sementes, colhemos frutos podres, permanecemos capazes de nos surpreender com nossa colheita previamente anunciada. Não há um justo, nenhum sequer. Quanto indivíduos, quanto sociedade, não há, sob nenhum aspecto, em nós, bondade. Não há um justo, nenhum sequer. Nem mesmo os bons podem gabar-se de possuírem mãos limpas. No entanto, choramos quando partem, não porque conscientemente temos evidências da justiça dos mortos, mas porque o mínimo de virtude que podíamos contemplar na forma como viviam, falavam e trabalhavam, era como chuva fria em dia quente, alívio e alegria, contemplação de algo potencialmente bom. Como é belo contemplar a virtude, mesmo que ínfima parte dela, ao contemplar humanos minimamente virtuosos.
Como poderia pensar algo diferente, ao ver a morte pelas telas de televisão, acerca do céu? As tragédias atuais são vislumbres claros, porém menos intensos da realidade vindoura, naquele lugar onde não haverá a virtude dos virtuosos, a justiça dos justos, a beleza dos belos, muito menos a Bondade do Único Bom. Se nos é doloroso ter de lidar com a perda momentânea de homens e mulheres virtuosos e belos, ainda que em seu estado não maduro de virtude e beleza, quem poderá suportar um mundo onde a justiça não poderá ser vista, nem a virtude buscada, nem a beleza contemplada? Como serão tristes nossos olhos, quão sombria será nossa alma quando a bondade, de uma vez por todas, abandonar-nos à nossa própria sorte, às nossas inclinações, desejos e ideias. Não há bondade em nós, lembremo-nos. Sem o Único Bom, de que será feita a terra? Quem pode confiar à própria consciência e intensão a garantia de um mundo belo?
Mas no céu não será assim. Lá não haverá tragédia e a justiça será vista à olho nu, como um rio limpo, de águas claras e saudáveis, correndo por toda a cidade. A virtude estará madura e produzirá frutos de virtude nos corações das mulheres e nos corações dos homens. O Único Bom sentará à mesa com as pessoas, tomaremos café, para quem é de café, tomaremos chá e haverá chimarrão. As tragédias serão um passado tão longínquo do qual não poderemos, se quer, ter lembranças, as más notícias não poderão ser conceituadas, não farão sentido para as pessoas daquele lugar. Não é difícil imaginar como será, embora seja impossível ter certeza de como será. Mas temos vislumbres. Olho em volta e percebo o que me garante paz e riso; vislumbres de como será. Olho em volta e noto trevas densas; vislumbre do que está prestes a sumir de diante dos meus olhos. Toda morte, toda perda, toda dor; prestes a sumir de diante dos meus olhos. No Reino do Rei Bom - aquele Rei que é também Bom Pastor, aquele Rei que é também Bom Pai - há paz. Há trabalho próspero, há alegria infinda, há comunhão nem um pouco frágil, há palavras cumpridas.
Olho as tragédias, sim. Mas, tão logo, olho nos olhos do Bom Pai. Nesses olhos há esperança impossível de ser frustrada. Nesses olhos há vida. Há riso. Riso eterno. Nesses olhos há o olhar do Pai e a garantia da companhia dele, companhia por agora e companhia para sempre. Certa dessa companhia posso caminhar; sempre em frente. Não paro por causa das lágrimas, elas, por hora, são enxutas durante a noite, recebo alegria, misericórdia e bondade ao abrir os olhos para o novo dia. Lágrimas colhidas, nenhuma será vã. Um dia serão enxutas, o Único Bom as enxugará para sempre. Esperança em meu encalço, toda manhã. Olhe à diante! O Reino do Filho Amado vem vindo de uma vez por todas.
Maranata. Vem, Senhor Jesus.
Comentários
Postar um comentário