Amor pela metade da xícara

Pus um tanto de amor na sua xícara de café, um tanto que, na verdade, transbordou. Precisei jogar pelo ralo uma boa parte e limpar as laterais de sua xícara branca. Até fiquei aliviada por ter dado tempo de esfriar um pouco, chegar menos quente, mais morno, sem aquela fumacinha de quem serviu a bebida fresca agorinha. Pra não te assustar, tudo isso. Pus um tanto de afeto nos meus dedos, os notei ágeis demais, doces demais, pesados de um jeito tamanho que carregados pela gravidade sempre eram arrastados ao topo da sua cabeça, entre seus cabelos, em uma atração esquisita, dançavam em seu couro cabeludo. Precisei despejar um tanto desse afeto, segurar minhas mãos, repreendê-las e discipliná-las. Pra não te assustar, tudo isso. Notei meus braços cansados, minha mente ocupada, cansados e ocupada com as maneiras diversas que catei para te ajudar, te aliviar as necessidades e se possível os desejos. Disciplinei meus braços servis; minha presteza podia te assustar. O amor, o amor de verdade, é escandaloso em trabalho. Quem ama demais, trabalha demais. Quem ama demais, serve. Parece não cansar, nem reclamar, sua paga é estranhamente feita com o alheio bem estar. Amor, amor de verdade, assusta. Tem cara de sem graça, quase nunca é pomposo e isso irrita tanto! Até me pego questionando se esse amor sem selfies, posts e flores é amor mesmo. É que o amor, o amor de verdade, até incomoda; por cutucar a gente lá dentro do peito, andar por dentro da alma num olhar rápido e pouco suspeito, pode segurar nas mãos nosso mais terrível desespero. Por vezes cai bem um amorzinho de mentira, de mentira não, mas de menos verdade. Um amor servido pela metade em uma xícara de café, morno e sem cafuné. Amor assim não assusta, não prende, não te faz de refém. Refém da paz que só o amor, o amor de verdade, tem. Não te assustei, nem você me assustou, chegou uma hora que a gente se abandonou. E nem doeu tanto, pra bem dizer, na realidade. É que fim de amor de meia verdade não doi, só incomoda, desajeita a rotina e polui o feed. Já o amor, amor de verdade, quando acaba sangra. Mas sangra só até sarar; e sempre sara. Porque amor quando é de verdade, mesmo quando termina, não mata. Porque o amor, mas só o amor de verdade, sempre alimenta na gente a semente da vida.

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