Laura, língua solta
Laura me contava a história de uma colega de sala, com a empolgação de quem conta algo instigante sendo, no caso, um acontecimento trágico; trágico pelo menos para a garota cujo nome nem me lembro. A companhia não era das melhores mas Laura era minha amiga desde a faculdade, mantê-la por perto, mesmo tendo dificuldade em ouvir seus assuntos intermináveis sobre outras pessoas, era um jeito de treinar minha paciência e a habilidade do que chamo de aceitação. Realmente, mesmo hoje, me sinto uma humana melhor a cada trinta minutos de conversa com ela. Não conversa exatamente, só jogo o novelo e passo o resto do tempo mudando a bolinha de lugar, enquanto ela se diverte tagarelando sobre a vida alheia e suas opiniões sobre o que as outras deviam fazer nas mais diversas situações. De vez em quando é quase inevitável fugir, em pensamento, para as entregas da semana ou a falta de entregas previstas para o próximo mês. Também acho esquisito que seja preferível pensar nas contas a pagar do que me concentrar na conversa com outro humano. Quanto mais insisto nesse segundo, mais humana, acho, que me torno. É um bom exercício de solidariedade ouvir pessoas e repudiar os pensamentos de julgamento quando, sem querer, um escapole "socorro, que pessoa rasa!". Naquele dia a soda italiana estava uma delícia, quanto mais quente o dia, melhor ela fica, tenho notado. Já lá pelo meio da tarde Laura precisava voltar ao escritório. Nos despedimos com um abraço de verdade. Gastei um tempo olhando as folhas se mexerem com a brisa leve, voltei ao ateliê ainda pensando sobre como pode ser esquisito uma história traumática virar um drama envolvente na boca de alheios.
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