A Jornada da Liberdade (considerações)
Esse texto é fruto de um pedido. Um feliz pedido! Pediram-me por uma opinião crítica ao livro A Jornada da Liberdade do Fagner Borges, fundador do movimento freesider. Na verdade, não só sobre o livro mas sobre essa onda de livros, palestras e cursos sobre sucesso, autoconhecimento, alta performance e esse universo rico de promessas fabulosas; no sentido que você quiser adotar para 'fabulosa'. Vamos traçar quatro pontos de discussão, começando pelo início (risos).
**
CULTURA
O livro inicia traçando um breve retrato do que é a vida do trabalhador médio brasileiro. Não falo daquelas pessoas excluídas do mercado de trabalho, nem dos abastados, falo da grande massa empregada, assalariada. Pessoas que empregam 8h a 12h de trabalho diário, usam transporte público, moram longe do trabalho e estão diariamente preocupadas com o vencimento dos boletos. Essas pessoas estão longe demais de morrerem por fadiga, como alguns irmãos do meu avô materno morreram na roça, enquanto trabalhavam, antes do 18 anos. Mas essas pessoas, ainda assim, estão fadigadas, preocupadas, desanimadas. Desencantadas.
O mercado de trabalho convence nosso imaginário quando ainda somos crianças e nos perguntamos: "o que vou ser quando crescer?" ou seja, que tipo de trabalho vou ter? Encontrar a felicidade, autoestima, realização, passa (e finda) por encontrar o trabalho perfeito, por achar um lugar ao sol e montar barraca lá. É o chamado 'carreirismo'. A carreira é a promessa da boa vida. Seja lá o que isso quer dizer. Do outro lado da moeda do carreirismo está o desencantamento.
Por um tempo acreditei que o descontentamento geral era devido aos péssimos salários, alta carga horária de trabalho, altos impostos carregando os rendimentos mensais, chefes ruins, ambientes de trabalho tóxicos, desrespeito a leis trabalhistas, falta de férias, falta de lazer apropriado, dentre tantas outras mazelas diariamente estampadas na cara do povo brasileiro. Na minha crença a solução seria leis melhores, fiscalização melhor, ética aprimorada e um conjunto de mudanças estruturais que fizesse o trabalho fluir, ao invés de parecer um empecilho na vida do trabalhador. Embora tudo isso seja bom e necessário, não é suficiente. Não é suficiente porque o desencantamento com a carreira só pode ser sanado com uma nova promessa, com algo que prometa resolver o buraco no coração humano. Qual coisa poderia realizar tal façanha? Liberdade financeira. Esse é o mood atual.
Se você alcançar sua liberdade financeira, você vai dar um chute na bunda do seu chefe, seu dinheiro investido vai gerar juros, você vai viver de renda, enquanto isso vai aprendendo sobre vendas, marketing digital, programação neurolinguistica e, assim, vai aumentar seu patrimônio vendendo coisas na internet. Você irá (finalmente) ser feliz! Veja bem, essa é a mesma promessa do carreirismo (sua carreira, sua vida), tão valorizado por nossos avós, tirando o 'trabalho duro', tido como o símbolo da dignidade, colocando em seu lugar o lazer, conforto e mobilidade, porque agora você é digno se puder ditar em qual cidade irá dormir na próxima semana. O apelo de tal promessa é forte porque o descontentamento é grande. Somos uma geração de infelizes. Sendo assim, destacarei aqui dois pontos, entre tantos outros, que me saltaram aos olhos logo no início do livro. Acredito que lidar com essas duas crenças, pode nos ajudar, enquanto cristãos, a analisar e discutir os discursos levantados pelos gurus da vida feliz e do trabalho perfeito. Os dois pontos em análise estão contidos entre as páginas 28 e 29 do livro A Jornada da Liberdade (Fagner Borges).
DEUS NOS FEZ PRODUTIVOS
O povo de Deus é um povo chamado a ser produtivo desde o Éden: "Multipliquem-se, encham a terra e dominem-na" Gn 1:28. O que nunca significou que os resultados produzidos pelo trabalho humano eram fruto do esforço, antes, porém, todo resultado de todo esforço e trabalho humanos, são provisão e graça de Deus, porque, em última análise, a Deus pertence a chuva que cai para alimentar as plantas, o sol de todos os dias, a inteligência, os talentos. Toda a matéria-prima utilizada para produção, multiplicação e criação vem de Deus, assim como todo resultado não é o produto da soma de todas as partes, ou de todas as tarefas, processos, regras, seguidos pelo homem; há sempre elementos que fogem ao nosso controle e contribuem para um determinado fim. O problema é justamente quando a gente olha para o resultado alcançado e enxerga a soma dos esforços humanos empregados ali, ignorando coisas 'básicas' como o ar, a chuva, o sol ou aqueles incidentes e imprevistos ocorridos no processo de trabalho que cooperaram para aquele fim. Todo resultado é, então, fruto da combinação do nosso esforço com forças não controladas, nem previstas, nem possíveis de ser calculadas, trabalhando em prol de um fim. Nenhum resultado é nosso. Todo fruto a Deus pertence. Mas Ele não nos deixa ociosos. Estamos engajados na obra que ele está empreendendo. O Pai continua trabalhando, a gente trabalha também.
O povo de Deus trabalha com inteligência e ordem, para isso nos foi dado dons e talentos, capacidade criativa, por isso podemos ser prudentes ao lidar com os recursos financeiros. Prudentes para gastar menos do que ganhamos, fazer uma reserva de emergência, utilizar dos recursos para ajudar os necessitados, ter recursos para investir na obra missionária, investir em educação, formação e aprimoramento, investir tempo em boas leituras. O povo de Deus é engajado, trabalhador, não ocioso. Habitamos no mundo e desenvolvemos sociedades, isso é muito bom!
Quando alguém cruza os braços ou mesmo quando alguém persiste nos mesmos hábitos ruins, autodestrutivos e sabotadores, não importa quanta 'fé' tenha, ou quantas vezes diga "se Deus quiser tudo muda um dia", nada vai mudar. Nisso preciso concordar com o autor e com todos os palestrantes motivacionais, psicólogos e coaches. Justamente por termos um Deus que trabalha, valorizamos o trabalho e mesmo em períodos de espera, como canta o Marcos Almeida, continuamos caminhando, caminhamos enquanto esperamos, produzimos e trabalhamos, jamais preguiçosos, jamais ociosos, jamais acríticos, sempre atentos, sempre proativos. Jamais ansiosos, jamais workaholic, jamais confiados na própria força mas perseverantes e consistentes. Deus nos fez produtores inteligentes, nos deu responsabilidades e espera que honremos ambas as coisas.
O que de fato também acontece de maneira geral, mais uma vez concordo com o autor, é que as pessoas se sentem produtivas pelo fato de estarem à disposição do patrão 8h por dia. A produtividade não está ligada a ter uma carteira de trabalho assinada, embora essa seja uma boa coisa (de maneira geral). Um trabalhador produtivo é alguém consciente, não alguém ausente de corpo presente. Como representante de Deus, dotado de habilidades, talentos e dons, o cristão é alguém consciente, não um reprodutor de tarefas somente, ele pensa sobre o que faz, melhora seu trabalho, desenvolve coisas novas. Fomos chamados a cultivar, cuidar, dominar a terra, não chamados à passividade. Se nos compreendemos como inventores, produtivos e criadores, à semelhança do próprio Deus, a forma como encaramos nosso trabalho mudará, deixará de habitar em nós melancolia e desesperança, sentimentos propícios que nos levam a adotar a ilusão da 'boa vida' ou do 'trabalho perfeito', buscando sucesso financeiro como o caminho para a felicidade que nosso emprego atual não proporciona.
Nesse alerta à responsabilidade há verdade, de fato somos e devemos lembrar que somos, responsáveis e devemos ser produtivos. No entanto, o que é difícil a um não cristão compreender é a tensão entre o chamado à sermos produtivos e o Deus que garante, e a Ele pertence, o resultado. Vejamos:
DEUS NOS CONCEDE COISAS
O cristão está em um relacionamento pessoal com Deus, alguém com um caráter intrigante. Deus simplesmente nos concede coisas e se sente feliz em fazê-lo. Podemos, como humanos, acreditar facilmente em sacrifícios de sangue para o deus da terra, do rio e da chuva, buscando suas bençãos, buscando a alegria de uma boa colheita. Podemos alcançar as benesses sendo bons ritualistas, bons adoradores. Ou podemos, como humanos, acreditar na inexistência de algum deus ou pelo menos acreditar que SE algum deus existe, ele não se importa, não se mete, não se envolve, ele nos deu o mundo e desde então temos de tomar conta dele. O cristão acredita no Deus que se importa, se mete, se envolve e nos concede bençãos. Não porque somos bons, esforçados e produtivos, mas porque ele quer. Eu sou o Senhor, o seu Deus, que tirei Israel da terra do Egito. Ainda hoje sou capaz de lhes dar tudo o que vocês quiserem. Sl 81:10
O autor do livro em questão questiona a crença em alguém que fará coisas por você, uma vez que tal crença te leva à inércia, te leva a falta de responsabilidade consigo, com seu futuro e com seus resultados. É absurdo se considerar especial demais a ponto de não precisar fazer coisa alguma porque alguém o fará por você, diz. Assim, ele propõe ao leitor não o abandono da fé mas o uso da fé como 'força motriz necessária para alcançar seus sonhos, lutar por aquilo que deseja, mudar o modo atual como vive a vida'. Bem, há tantos equívocos nessa frase que poderia fazer um sermão sobre ela. Vou limitar meu comentário a te encorajar a jamais perseguir seus sonhos e desejos em uma jornada solitária, ou seja, sem Deus, sem a pessoa de Jesus, sem questionar profunda e demoradamente cada um de seus desejos e sonhos. Pode ser tremendamente devastador utilizar a força de fé em algo que simplesmente não faz nenhum sentido à luz da eternidade. Como lidar com tais argumentos, então?
Lembrando-se: creio em um Deus deliberadamente doador. A minha fé não é força motriz para meus sonhos, minha fé está firmada na obra de Cristo na cruz e tal obra me garante vida na presença do Pai, perdão de todo pecado e reconciliação apesar de minha rebeldia. Nisso consiste a fé do cristão. Ela não é ferramenta de nenhum tipo de conquista, terrena ou celestial.
A lógica humana consiste em fazer algo para obter determinado resultado, e essa é uma boa lógica. Estudamos a matéria da disciplina para responder bem uma prova e obter boas notas. Prostituir tal lógica é ato daquele aluno preguiçoso que rejeita o esforço do estudo e, fazendo uma oração, espera obter boas notas, esquecendo-se que uma graça já lhe foi concedida, sem ser pedida, a graça da inteligência, da capacidade de reter informações, fazer conexões lógicas, apreender informações pela leitura e repetição; capacidade cerebral de aprendizado. Ninguém pagou por isso, ninguém pediu por isso, recebemos de graça; eis a vergonha do mérito. Estudar é o esforço, o trabalho de um estudante minimamente consciente. Boa nota é o resultado da graça (cérebro em bom estado de funcionamento) associada ao esforço. Ou seja, como diria meu pai: "não fez mais que sua obrigação". Mas até o esforço do estudo deve ser empregado em total e constante consciência de que tal prática é também fruto da graça. É importante frisar isso e evitar possíveis teses de doutorado tentando quantificar qual percentual do bom resultado é fruto da graça e quanto é fruto do esforço.
Para finalizar esse ponto, devemos nos lembrar que como habitantes do mundo de Deus, estamos embebidos no Seu caráter doador e tudo o que nos chega à mão é fruto do Seu desejo de nos conceder, não estamos sozinhos nunca. Podemos até tentar negar o fato constrangedor do coração irreparavelmente doador do Senhor, mas que trágico seria experimentar o encolhimento da Sua mão.
À SERVIÇO DE ALGUÉM
Por fim tem sido importante pra mim, ao lidar com os conflitos pessoais nesse campo, lembrar que o objetivo do meu trabalho não é a felicidade, a prosperidade financeira, a segurança, o controle, o poder ou a realização. Se estivesse em um túnel, a luz lá no final não seria, não poderia, não deveria, ser nenhuma dessas coisas. A luz no final do túnel, aquela coisa almejada é o próprio Cristo. Meu trabalho se inicia com a bondade dEle me concedendo capacidades, habilidades, talentos. Junto-me a Ele no trabalho que Ele está desenvolvendo no mundo - veja bem, meu trabalho não é fruto de alguma ideia incrivelmente maravilhosa e mirabolante inventada por mim mesma, ao contrário, é, e deve ser, fruto do direcionamento do Senhor - e devolvo a Ele todo sucesso e todo fracasso, sabendo que todo resultado a Ele pertence, não a mim, sabendo que minha identidade não flui do quanto sou bem sucedida, rica ou bem posicionada, flui da obra redentora de Cristo na cruz. Preciso me lembrar que o emprego mais importante do mundo foi dado a Jesus, a função dEle era anunciar o Reino de Deus, morrer pelo perdão de pecados e ressuscitar. Não posso fazer nada maior que isso. Nem mesmo estabelecer um império, vendê-lo e doar o dinheiro para acabar com a fome no mundo. Não há meio de me justificar via trabalho.
Por isso, não há apego afetivo nos meus resultados, no sentido de que eles são capazes de me definir, de me destruir ou de dar sentido à minha existência. Minha vida está à serviço de Cristo não à serviço da minha felicidade. Em um ambiente social incansavelmente convidativo, somos chamados a trabalhar em prol da segurança e do conforto, os empregos formais estão distantes de nos garantir isso, a internet nos faz promessas e os influenciadores digitais ratificam tais promessas. O discurso é de que você pode fazer o que quiser, seu sucesso profissional só depende de você e qualquer um pode enriquecer legalmente. O problema é perseguir tal sucesso profissional como se Deus tivesse posto o mundo para funcionar e tivesse decidido se ausentar dele. O problema é desconsiderar todas os ídolos por trás desses discursos. O problema é buscar tais promessas para a própria satisfação. Não tenho dúvidas de que dentro de um determinado ambiente social tais promessas possam se cumprir na vida de alguém, muitas pessoas estão alcançados a liberdade financeira, mobilidade e liberdade de tempo almejadas. Resta saber, entre quatro parentes, na intimidade do seu relacionamento com Jesus, se esses são os objetivos a serem alcançados na sua vida e qual é o propósito disso. É importante definir isso antes de postar a primeira foto no Instagram. Assim, todo esforço empregado, todo resultado alcançado, deverá ser intencionalmente dedicado ao Senhor, como fruto do desejo dEle, do trabalho dEle, do propósito dEle. Afinal:
***
2018 foi o ano em que mais lavei prato, limpei casa, lavei banheiro e cozinhei nesses 23 anos de vida. Foi o ano mais inútil, poderia assim considerar, por não ter dado nenhum passo importante na minha carreira profissional. Foi um ano difícil não por ser corrido, mas por ser parado. Só Jesus sabe como foi difícil. E, talvez por Ele saber tanto, foi o ano onde mais fui disciplinada e ensinada sobre meu valor para além do trabalho. Nunca tive sonho de casar, ganhar as nações para Jesus ou ensinar crianças na África, sempre quis trabalhar, ganhar dinheiro e fazer algo útil contra a pobreza. Sempre achei, inconscientemente, que poderia justificar minha existência, justificar o castigo do meu pecado sobre o corpo de Jesus, se fizesse algo importante como trabalho. Nesse ano fiz cursos, li livros, ouvi palestras, mas foi uma frase que me deixou chocada, sem palavras, despida e constrangida:
Se estou buscando sucesso financeiro para auto-justificativa, autorrealização, autopromoção e felicidade, não posso contar com Deus para alcançá-lo. Mas se busco o Reino, Ele me dará todas as outras coisas Mt 6:33 porque é do agrado do Pai dar o Reino a nós Lc 12:32. Portanto, posso, apesar da crise na área profissional, não me valer do conjunto de novas promessas e técnicas lançadas pelo mercado, que são boas e funcionam, mas são limitadas e não podem responder aos anseios mais profundos do meu coração, não posso me apegar a elas para buscar e justificar sucesso ou fracasso. Assim, apesar, dessas incertezas e pouca compreensão, afinal, o ano está acabando e eu ainda não entendi nada, posso sim me revestir de força e dignidade e sorrir diante do futuro Pv 31:25.
A você que chegou até aqui, faça coro comigo e diga a si mesmo, todas manhãs, lembrando ao seu furioso e rebelde coração: ei, coração meu, encontre a Cristo e junto com Ele você encontrará todas as outras coisas.
**
CULTURA
O livro inicia traçando um breve retrato do que é a vida do trabalhador médio brasileiro. Não falo daquelas pessoas excluídas do mercado de trabalho, nem dos abastados, falo da grande massa empregada, assalariada. Pessoas que empregam 8h a 12h de trabalho diário, usam transporte público, moram longe do trabalho e estão diariamente preocupadas com o vencimento dos boletos. Essas pessoas estão longe demais de morrerem por fadiga, como alguns irmãos do meu avô materno morreram na roça, enquanto trabalhavam, antes do 18 anos. Mas essas pessoas, ainda assim, estão fadigadas, preocupadas, desanimadas. Desencantadas.
O mercado de trabalho convence nosso imaginário quando ainda somos crianças e nos perguntamos: "o que vou ser quando crescer?" ou seja, que tipo de trabalho vou ter? Encontrar a felicidade, autoestima, realização, passa (e finda) por encontrar o trabalho perfeito, por achar um lugar ao sol e montar barraca lá. É o chamado 'carreirismo'. A carreira é a promessa da boa vida. Seja lá o que isso quer dizer. Do outro lado da moeda do carreirismo está o desencantamento.
Por um tempo acreditei que o descontentamento geral era devido aos péssimos salários, alta carga horária de trabalho, altos impostos carregando os rendimentos mensais, chefes ruins, ambientes de trabalho tóxicos, desrespeito a leis trabalhistas, falta de férias, falta de lazer apropriado, dentre tantas outras mazelas diariamente estampadas na cara do povo brasileiro. Na minha crença a solução seria leis melhores, fiscalização melhor, ética aprimorada e um conjunto de mudanças estruturais que fizesse o trabalho fluir, ao invés de parecer um empecilho na vida do trabalhador. Embora tudo isso seja bom e necessário, não é suficiente. Não é suficiente porque o desencantamento com a carreira só pode ser sanado com uma nova promessa, com algo que prometa resolver o buraco no coração humano. Qual coisa poderia realizar tal façanha? Liberdade financeira. Esse é o mood atual.
Se você alcançar sua liberdade financeira, você vai dar um chute na bunda do seu chefe, seu dinheiro investido vai gerar juros, você vai viver de renda, enquanto isso vai aprendendo sobre vendas, marketing digital, programação neurolinguistica e, assim, vai aumentar seu patrimônio vendendo coisas na internet. Você irá (finalmente) ser feliz! Veja bem, essa é a mesma promessa do carreirismo (sua carreira, sua vida), tão valorizado por nossos avós, tirando o 'trabalho duro', tido como o símbolo da dignidade, colocando em seu lugar o lazer, conforto e mobilidade, porque agora você é digno se puder ditar em qual cidade irá dormir na próxima semana. O apelo de tal promessa é forte porque o descontentamento é grande. Somos uma geração de infelizes. Sendo assim, destacarei aqui dois pontos, entre tantos outros, que me saltaram aos olhos logo no início do livro. Acredito que lidar com essas duas crenças, pode nos ajudar, enquanto cristãos, a analisar e discutir os discursos levantados pelos gurus da vida feliz e do trabalho perfeito. Os dois pontos em análise estão contidos entre as páginas 28 e 29 do livro A Jornada da Liberdade (Fagner Borges).
DEUS NOS FEZ PRODUTIVOS
O povo de Deus é um povo chamado a ser produtivo desde o Éden: "Multipliquem-se, encham a terra e dominem-na" Gn 1:28. O que nunca significou que os resultados produzidos pelo trabalho humano eram fruto do esforço, antes, porém, todo resultado de todo esforço e trabalho humanos, são provisão e graça de Deus, porque, em última análise, a Deus pertence a chuva que cai para alimentar as plantas, o sol de todos os dias, a inteligência, os talentos. Toda a matéria-prima utilizada para produção, multiplicação e criação vem de Deus, assim como todo resultado não é o produto da soma de todas as partes, ou de todas as tarefas, processos, regras, seguidos pelo homem; há sempre elementos que fogem ao nosso controle e contribuem para um determinado fim. O problema é justamente quando a gente olha para o resultado alcançado e enxerga a soma dos esforços humanos empregados ali, ignorando coisas 'básicas' como o ar, a chuva, o sol ou aqueles incidentes e imprevistos ocorridos no processo de trabalho que cooperaram para aquele fim. Todo resultado é, então, fruto da combinação do nosso esforço com forças não controladas, nem previstas, nem possíveis de ser calculadas, trabalhando em prol de um fim. Nenhum resultado é nosso. Todo fruto a Deus pertence. Mas Ele não nos deixa ociosos. Estamos engajados na obra que ele está empreendendo. O Pai continua trabalhando, a gente trabalha também.
O povo de Deus trabalha com inteligência e ordem, para isso nos foi dado dons e talentos, capacidade criativa, por isso podemos ser prudentes ao lidar com os recursos financeiros. Prudentes para gastar menos do que ganhamos, fazer uma reserva de emergência, utilizar dos recursos para ajudar os necessitados, ter recursos para investir na obra missionária, investir em educação, formação e aprimoramento, investir tempo em boas leituras. O povo de Deus é engajado, trabalhador, não ocioso. Habitamos no mundo e desenvolvemos sociedades, isso é muito bom!
"Construam casas e habitem nelas; plantem jardins e comam de seus frutos. Casem-se e tenham filhos e filhas; escolham mulheres para casar-se com seus filhos e dêem as suas filhas em casamento, para que também tenham filhos e filhas. Multipliquem-se e não diminuam. Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela". Jr 29:5-7
Quando alguém cruza os braços ou mesmo quando alguém persiste nos mesmos hábitos ruins, autodestrutivos e sabotadores, não importa quanta 'fé' tenha, ou quantas vezes diga "se Deus quiser tudo muda um dia", nada vai mudar. Nisso preciso concordar com o autor e com todos os palestrantes motivacionais, psicólogos e coaches. Justamente por termos um Deus que trabalha, valorizamos o trabalho e mesmo em períodos de espera, como canta o Marcos Almeida, continuamos caminhando, caminhamos enquanto esperamos, produzimos e trabalhamos, jamais preguiçosos, jamais ociosos, jamais acríticos, sempre atentos, sempre proativos. Jamais ansiosos, jamais workaholic, jamais confiados na própria força mas perseverantes e consistentes. Deus nos fez produtores inteligentes, nos deu responsabilidades e espera que honremos ambas as coisas.
O que de fato também acontece de maneira geral, mais uma vez concordo com o autor, é que as pessoas se sentem produtivas pelo fato de estarem à disposição do patrão 8h por dia. A produtividade não está ligada a ter uma carteira de trabalho assinada, embora essa seja uma boa coisa (de maneira geral). Um trabalhador produtivo é alguém consciente, não alguém ausente de corpo presente. Como representante de Deus, dotado de habilidades, talentos e dons, o cristão é alguém consciente, não um reprodutor de tarefas somente, ele pensa sobre o que faz, melhora seu trabalho, desenvolve coisas novas. Fomos chamados a cultivar, cuidar, dominar a terra, não chamados à passividade. Se nos compreendemos como inventores, produtivos e criadores, à semelhança do próprio Deus, a forma como encaramos nosso trabalho mudará, deixará de habitar em nós melancolia e desesperança, sentimentos propícios que nos levam a adotar a ilusão da 'boa vida' ou do 'trabalho perfeito', buscando sucesso financeiro como o caminho para a felicidade que nosso emprego atual não proporciona.
Nesse alerta à responsabilidade há verdade, de fato somos e devemos lembrar que somos, responsáveis e devemos ser produtivos. No entanto, o que é difícil a um não cristão compreender é a tensão entre o chamado à sermos produtivos e o Deus que garante, e a Ele pertence, o resultado. Vejamos:
DEUS NOS CONCEDE COISAS
O cristão está em um relacionamento pessoal com Deus, alguém com um caráter intrigante. Deus simplesmente nos concede coisas e se sente feliz em fazê-lo. Podemos, como humanos, acreditar facilmente em sacrifícios de sangue para o deus da terra, do rio e da chuva, buscando suas bençãos, buscando a alegria de uma boa colheita. Podemos alcançar as benesses sendo bons ritualistas, bons adoradores. Ou podemos, como humanos, acreditar na inexistência de algum deus ou pelo menos acreditar que SE algum deus existe, ele não se importa, não se mete, não se envolve, ele nos deu o mundo e desde então temos de tomar conta dele. O cristão acredita no Deus que se importa, se mete, se envolve e nos concede bençãos. Não porque somos bons, esforçados e produtivos, mas porque ele quer. Eu sou o Senhor, o seu Deus, que tirei Israel da terra do Egito. Ainda hoje sou capaz de lhes dar tudo o que vocês quiserem. Sl 81:10
O autor do livro em questão questiona a crença em alguém que fará coisas por você, uma vez que tal crença te leva à inércia, te leva a falta de responsabilidade consigo, com seu futuro e com seus resultados. É absurdo se considerar especial demais a ponto de não precisar fazer coisa alguma porque alguém o fará por você, diz. Assim, ele propõe ao leitor não o abandono da fé mas o uso da fé como 'força motriz necessária para alcançar seus sonhos, lutar por aquilo que deseja, mudar o modo atual como vive a vida'. Bem, há tantos equívocos nessa frase que poderia fazer um sermão sobre ela. Vou limitar meu comentário a te encorajar a jamais perseguir seus sonhos e desejos em uma jornada solitária, ou seja, sem Deus, sem a pessoa de Jesus, sem questionar profunda e demoradamente cada um de seus desejos e sonhos. Pode ser tremendamente devastador utilizar a força de fé em algo que simplesmente não faz nenhum sentido à luz da eternidade. Como lidar com tais argumentos, então?
Lembrando-se: creio em um Deus deliberadamente doador. A minha fé não é força motriz para meus sonhos, minha fé está firmada na obra de Cristo na cruz e tal obra me garante vida na presença do Pai, perdão de todo pecado e reconciliação apesar de minha rebeldia. Nisso consiste a fé do cristão. Ela não é ferramenta de nenhum tipo de conquista, terrena ou celestial.
Visto que ele não poupou nem o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, será que certamente não nos dará, e de graça, todas as coisas? Rm 8: 32
A lógica humana consiste em fazer algo para obter determinado resultado, e essa é uma boa lógica. Estudamos a matéria da disciplina para responder bem uma prova e obter boas notas. Prostituir tal lógica é ato daquele aluno preguiçoso que rejeita o esforço do estudo e, fazendo uma oração, espera obter boas notas, esquecendo-se que uma graça já lhe foi concedida, sem ser pedida, a graça da inteligência, da capacidade de reter informações, fazer conexões lógicas, apreender informações pela leitura e repetição; capacidade cerebral de aprendizado. Ninguém pagou por isso, ninguém pediu por isso, recebemos de graça; eis a vergonha do mérito. Estudar é o esforço, o trabalho de um estudante minimamente consciente. Boa nota é o resultado da graça (cérebro em bom estado de funcionamento) associada ao esforço. Ou seja, como diria meu pai: "não fez mais que sua obrigação". Mas até o esforço do estudo deve ser empregado em total e constante consciência de que tal prática é também fruto da graça. É importante frisar isso e evitar possíveis teses de doutorado tentando quantificar qual percentual do bom resultado é fruto da graça e quanto é fruto do esforço.
Para finalizar esse ponto, devemos nos lembrar que como habitantes do mundo de Deus, estamos embebidos no Seu caráter doador e tudo o que nos chega à mão é fruto do Seu desejo de nos conceder, não estamos sozinhos nunca. Podemos até tentar negar o fato constrangedor do coração irreparavelmente doador do Senhor, mas que trágico seria experimentar o encolhimento da Sua mão.
À SERVIÇO DE ALGUÉM
Por fim tem sido importante pra mim, ao lidar com os conflitos pessoais nesse campo, lembrar que o objetivo do meu trabalho não é a felicidade, a prosperidade financeira, a segurança, o controle, o poder ou a realização. Se estivesse em um túnel, a luz lá no final não seria, não poderia, não deveria, ser nenhuma dessas coisas. A luz no final do túnel, aquela coisa almejada é o próprio Cristo. Meu trabalho se inicia com a bondade dEle me concedendo capacidades, habilidades, talentos. Junto-me a Ele no trabalho que Ele está desenvolvendo no mundo - veja bem, meu trabalho não é fruto de alguma ideia incrivelmente maravilhosa e mirabolante inventada por mim mesma, ao contrário, é, e deve ser, fruto do direcionamento do Senhor - e devolvo a Ele todo sucesso e todo fracasso, sabendo que todo resultado a Ele pertence, não a mim, sabendo que minha identidade não flui do quanto sou bem sucedida, rica ou bem posicionada, flui da obra redentora de Cristo na cruz. Preciso me lembrar que o emprego mais importante do mundo foi dado a Jesus, a função dEle era anunciar o Reino de Deus, morrer pelo perdão de pecados e ressuscitar. Não posso fazer nada maior que isso. Nem mesmo estabelecer um império, vendê-lo e doar o dinheiro para acabar com a fome no mundo. Não há meio de me justificar via trabalho.
Por isso, não há apego afetivo nos meus resultados, no sentido de que eles são capazes de me definir, de me destruir ou de dar sentido à minha existência. Minha vida está à serviço de Cristo não à serviço da minha felicidade. Em um ambiente social incansavelmente convidativo, somos chamados a trabalhar em prol da segurança e do conforto, os empregos formais estão distantes de nos garantir isso, a internet nos faz promessas e os influenciadores digitais ratificam tais promessas. O discurso é de que você pode fazer o que quiser, seu sucesso profissional só depende de você e qualquer um pode enriquecer legalmente. O problema é perseguir tal sucesso profissional como se Deus tivesse posto o mundo para funcionar e tivesse decidido se ausentar dele. O problema é desconsiderar todas os ídolos por trás desses discursos. O problema é buscar tais promessas para a própria satisfação. Não tenho dúvidas de que dentro de um determinado ambiente social tais promessas possam se cumprir na vida de alguém, muitas pessoas estão alcançados a liberdade financeira, mobilidade e liberdade de tempo almejadas. Resta saber, entre quatro parentes, na intimidade do seu relacionamento com Jesus, se esses são os objetivos a serem alcançados na sua vida e qual é o propósito disso. É importante definir isso antes de postar a primeira foto no Instagram. Assim, todo esforço empregado, todo resultado alcançado, deverá ser intencionalmente dedicado ao Senhor, como fruto do desejo dEle, do trabalho dEle, do propósito dEle. Afinal:
Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam. Se o Senhor não vigiar a cidade, o trabalho dos guardas é completamente inútil.Será inútil trabalhar de sol a sol, acordar de madrugada e dormir a altas horas da noite, comer o pão amassado com o suor do rosto, pois o Senhor dá o sustento aos seus amados, mesmo enquanto estão dormindo. Sl 127:1
Esse texto reflete a tensão na qual vive no cristão. O Senhor edifica, o Senhor guarda. Nós trabalhamos e vigiamos. Enquanto dormimos Ele nos abençoa.
***
2018 foi o ano em que mais lavei prato, limpei casa, lavei banheiro e cozinhei nesses 23 anos de vida. Foi o ano mais inútil, poderia assim considerar, por não ter dado nenhum passo importante na minha carreira profissional. Foi um ano difícil não por ser corrido, mas por ser parado. Só Jesus sabe como foi difícil. E, talvez por Ele saber tanto, foi o ano onde mais fui disciplinada e ensinada sobre meu valor para além do trabalho. Nunca tive sonho de casar, ganhar as nações para Jesus ou ensinar crianças na África, sempre quis trabalhar, ganhar dinheiro e fazer algo útil contra a pobreza. Sempre achei, inconscientemente, que poderia justificar minha existência, justificar o castigo do meu pecado sobre o corpo de Jesus, se fizesse algo importante como trabalho. Nesse ano fiz cursos, li livros, ouvi palestras, mas foi uma frase que me deixou chocada, sem palavras, despida e constrangida:
"Jesus já fez tudo por nós, e ele nos ama - é assim que sabemos que nossa existência está justificada" Tim Keller, Deuses Falsos.
Se estou buscando sucesso financeiro para auto-justificativa, autorrealização, autopromoção e felicidade, não posso contar com Deus para alcançá-lo. Mas se busco o Reino, Ele me dará todas as outras coisas Mt 6:33 porque é do agrado do Pai dar o Reino a nós Lc 12:32. Portanto, posso, apesar da crise na área profissional, não me valer do conjunto de novas promessas e técnicas lançadas pelo mercado, que são boas e funcionam, mas são limitadas e não podem responder aos anseios mais profundos do meu coração, não posso me apegar a elas para buscar e justificar sucesso ou fracasso. Assim, apesar, dessas incertezas e pouca compreensão, afinal, o ano está acabando e eu ainda não entendi nada, posso sim me revestir de força e dignidade e sorrir diante do futuro Pv 31:25.
A você que chegou até aqui, faça coro comigo e diga a si mesmo, todas manhãs, lembrando ao seu furioso e rebelde coração: ei, coração meu, encontre a Cristo e junto com Ele você encontrará todas as outras coisas.
Comentários
Postar um comentário