Escrever e Viver tem tudo a ver
Desde que me lembro sempre fui de escrever a noite. Não raras as vezes estava deitada, pronta para dormir, quase pegando no sono, quando vinham frases, versos cutinhos, histórias boas; eu tinha, é claro, de levantar e escrever. A folha em branco, por outro lado, também sempre esteve ali, angustiando minhas horas marcadas para produção. É quase como um jogo de pega-pega, quando quero as palavras elas fogem, quando não as quero elas me bombardeiam. Pior, bombardeiam minha mente deixando bem claro: é agora ou nunca, ou você senta para escrever ou eu vou embora e nunca mais haverá rastro desse história! E eu sabia o quanto esse aviso era real. Quando um verso, um trecho, um conto, uma história te vem, você não pode, petulantemente, ignorar e avisar ao seu cérebro "guarda para depois". Ele não vai guardar. É sentar e escrever ou perder. Não poucas as vezes, por preguiça ou distração, deixei perder. Ah, que agonia! Uma história ignorada jamais será sua de volta. Demorei mas aprendi.
Sejamos gratos. Pelo esforço e pelos presentes. Pelo mérito e pela graça. Pela vida que acontece ao redor da gente. Nosso suor vale tanto quanto nosso descanso. Viver é esse passeio, amigos.
Não parece isso um padrão da vida do homem? Às vezes estamos empenhados demais para construir ou conquistar qualquer coisa aparentemente importante, mas, ignorando todo o esforço devotado, aquele empreendimento simplesmente não acontece. A angústia de uma folha em branco atinge nosso ego tanto quanto a angústia de um desejo não realizado, de um processo não concluído, de um projeto que não foi para frente. Por outras vezes, algumas coisas, de maneira simples, caem no nosso colo, sem aparentemente nenhum esforço nos são dadas e, por preguiça, distração ou banalização, ignoramos esses singelos presentes deixados na nossa porta. Aprendi a não ignorar nem os bons resultados de grandes esforços, nem os presentes imerecidos com os quais sou agraciada.
Boas histórias acontecem pelo lapidar constante de ideias desconexas, pela construção forçada de cenários e diálogos, pela observação intencional das pessoas e do cotidiano. Porém, boas histórias também acontecem no relaxamento da mente durante um banho ou um cochilo, sem prazos e sem folhas a serem escritas; acontecem como presentes, como mimos, como carinho. Deverão ser acolhidas, ouvidas, bem cuidadas, podadas e alimentadas, até se tornarem bonitos enredos, não ignoradas só porque não são fruto de suor e cansaço.
Penso que talvez pudéssemos derramar esse tipo de graça sobre todas as outras partes da existência. Aplaudimos o esforço e usufruímos dos seus resultados. Mas também (devemos e podemos) nos alegrar pelas dádivas imerecidas, por aquelas coisas alcançadas sem dificuldade e dor, por aqueles benefícios trazidos na brisa da tranquilidade, do inesperado, na maré mansa de um mar calmo. Nem tudo de bom será conquistado com grandes picos de adrenalina. Há belezas que, pura e simplesmente, nos alcançam.
Sejamos gratos. Pelo esforço e pelos presentes. Pelo mérito e pela graça. Pela vida que acontece ao redor da gente. Nosso suor vale tanto quanto nosso descanso. Viver é esse passeio, amigos.
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