Esperas que enchem
Há uma espera pela qual suporto todo dia chato, toda chatice sua; pra não perder o laço no fim dessa minha linha. Há esperas tão vazias, desses tipos sufocantes de tanto nada, num ar raro de vida, ar impossível de brotar coisa alguma. Essas tais me solidificam na cadeira da sala de estar, enquanto dançam meus ponteiros de relógio de pulso, enquanto suo pelo calor da cidade quente, enquanto só espero essa espera passar. Te suporto na chatice de um chegada demorada, de brava fico triste e mal me aguento; ainda bem que estou sentada! Torço meu nariz ao ler sua carta recém chegada, num tom pra me desfazer inteira e enrolar minha garganta: 'levanta a bunda dessa cadeira, sua anta!'. Suas palavras polidas, bem pintadas e tão bem ditas reverberam assim, mal criadas dentro de mim, porque leio sob minha voz e ela está embargada, enfeitiçada, e raivosa agora. Constrangida e aperreada obedeço seu doce comando; mesmo quando negas me dizer quando essa bagunça passa, quando você chega, quando essa espera acaba. Você ousa dizer que já está e eu teimo em não te ver por aqui. Levando da cadeira e vivo na tua espera, de um jeito que você se alegre ao ouvir de mim. Vivo assim esperas cheias, porque, de um jeito esquisito minha espera não está vazia, não hoje, não mais. Há laço agora e ele aponta para um laço perfeito, do tipo que não pode ser desfeito.
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