Para solteiros e para quem quer casar solteiros

Trago a desconfiança de que a produção de textos nesse espaço seria menos farrapeira se eu tivesse alguém para formar as pautas. Por esse e outros motivos nunca vi problemas em ter um(a) chefe, no mínimo tal pessoa terá o trabalho de me apontar um caminho. Pois bem, algumas vezes pautas externas surgem, mas são difíceis de serem respondidas, então, ~ procrastino ~. É o caso da pauta de hoje. 

Quando eu era adolescente costumava conversar com os amigos sobre a validade de um batismo por imersão e o quanto era importante que a igreja se envolvesse mais com a comunidade ao redor, principalmente em socorro social. À medida que envelheci, quase como um passe de mágica, os assuntos muito facilmente giram em torno de casamento, família, filhos, papeis de homem e mulher, a função do solteiro, idade para casar e todos os demais assuntos que orbitam em torno do tema "casamento".

Não é incomum sentimentos de frustração, desconfiança, medo, incerteza, vulnerabilidade, vergonha e desconfortos em geral, principalmente quando a "idade certa" parece ter chegado e o(a) dito(a) cujo(a) está vindo caminhando dos desertos da arábia com longas pausas para descanso no meio do caminho. Pior, quando os pares do(a) solteiro(a) acreditam piamente que ele(a) está escolhendo demais, por isso "ainda" está solteiro(a). Pois bem, em vista deste cenário, uma amiga pediu que escrevesse algo e para início de conversa, apontando um rumo, indicou que começasse por aqui:

"Esperar em Deus pode ser difícil, mas não tanto quanto
viver as consequências de uma escolha errada"


Esse é um texto para todos meus amigos e amigas solteiros(as) cujas famílias e amigos te lembram todos os dias o quanto você é inapropriado por não estar casado ou não estar se preparando para isso. Ou para aquelas pessoas cujas famílias nem se lembram desse assunto, mas elas se sentem inapropriadas e fracassadas. Afinal, aos 12 anos você achou que casaria aos 22 anos e se sente a pior pessoa do mundo por não ter realizado o sonho de uma criança de 12 anos. Você não realizou aos 22, está beirando os 30, já passou dos 30, para piorar, seus irmãos já tiveram filhos e você é literalmente a "tia solteira". Ou o "tio solteiro". Aceite a Graça sobre você e sinta-se amado(a). Sério. 


Esperança

Cremos que Deus ama casamentos, que Deus criou o casamento e fez a família. Cremos que Deus é bom e que no Reino dele nos é dada todas as coisas necessárias, para a vida e para a morte. Sendo assim, crescemos sendo alimentados sobre o desejo de Deus para nossas futuras famílias, sobre o tipo de cônjuge e a maneira correta de criar filhos. Conhecemos um Deus que faz estéril ser mãe e cria uma família para através dela abençoar a terra inteira. Sem dúvidas, Deus ama famílias. Também consideramos que o desejo de formar uma aliança com alguém e constituir família vem de Deus, ele pôs em nós a vontade de estarmos em par e nos criou para vivermos em comunidade. Família é coisa de Deus, é uma benção incrível! Porém, não é nela o lugar onde repousa nossa esperança. Nós não vivemos esperando por uma família. Embora nosso imaginário seja bombardeado por imagens de pessoas felizes quando encontram alguém para chamar de relacionamento-sério-no-Facebook, não é nisso que fincamos nossas olhos e depositamos a espera. Nós vivemos esperando por Jesus, essa é nossa expectativa verdadeira. Esperamos pela bondade do Senhor sendo revelada em nós e através de nós no dia a dia de nossa agenda comum, e que a Sua vontade seja feita. Não esperamos pelas bençãos de Deus, esperamos pelo próprio Deus e onde Deus está, as bençãos dEle nos alcançam, percebe a ordem dos fatores?

Portanto, isso não significa que não esperamos que Deus nos abençoe, esperamos sim que ele nos abençoe, mas essas bençãos são servas do objetivo último do Senhor: construir em nós o caráter de Cristo. Ter esperança em Deus é saber que ele não fracassa nos Seus objetivos e que se Ele decidir abençoar alguém através da formação de um família, Ele fará isso. Algumas pessoas tomam as rédeas dessa decisão, exatamente como fazem na vida profissional, como num cálculo matemático. Esquadrinham a Bíblia para descobrir o 'tipo ideal' e saem por aí comparando a lista com as pessoas que encontram. Uma hora a lista parece bater. Outras vezes a lista parece improvável demais para o mundo de mortais e começam a reconsiderar alguns pontos. De um ou de outro jeito, aparentemente, a pessoa de Jesus Cristo, viva, presente e totalmente acessível para comunicação é ignorada pela equação.

Bem, minha pouquíssima experiência grita alto feito bebê com fome: vai por aí não que é ruim, miga. Não sei pelo o que você espera alcançar nesse lado da eternidade, mas ajuda muito lembrar que a História em curso no cosmos inteirinho é sobre o Criador vindo resgatar para Si mesmo a Sua criação. No meio desse caminho pode ser que você case, pode ser que não. Olhe para o todo e o blábláblá da família, dos amigos e dos membros da igreja parecerão bobos e cheios de desesperança.


Talvez eu nunca case


Coloco em termos de 'eu' para o(a) leitor(a) não sentir que há alguma espécie de praga aqui, tudo bem?

Sou da posição de que se eu assumir tal possibilidade (de não casar nunca) como real e factível, meus olhos poderão ser abertos para uma série de possibilidades de vida que não estão orbitando em torno do casamento. Dedicando meu tempo a coisas tão santas, boas, produtivas e úteis quanto o casamento. Veja bem, reitero, casamento é coisa de Deus, se Ele fez eu só posso crer ser bom. No entanto, se passo a vida contando com o fato de que algum dia vou encontrar alguém e... torna-se mais dolorido o passar dos dias sem o famigerado encontro. Sem contar no fato grotesco de considerar cada novo(a) conhecido(a) como o(a) possível conjunge, dificultando o desenvolvimento de amizades reais.

Considerar como verdadeira e real a possibilidade de jamais casar diminui a pressão. Sou da opinião de que talvez as pessoas vão relaxar mais com minha solteirice se eu estiver relaxada e confortável nela. Ou, talvez, elas continuem insistindo por invejarem minha paz (brincadeira, mas nem tanto). É claro que na prática isso não necessariamente se aplica, veja os casos de pessoas lutando pelo direito dos padres casarem, quando nem eles estão lutando por isso...

Talvez boa parte do incômodo sentido na cobrança por um casamento, é porque as pessoas cobram algo que eu já estou cobrando de mim. Veja bem, eu não me sinto ofendida, acuada, chateada ou desconfortável quando me oferecem cerveja ou insistem que eu prove 'só um pouquinho'. Eu só preciso dizer 'ah, não, gosto não, obrigada'. Não fico o resto do dia martelando sobre possíveis respostas para minha recusa a uma cerveja. Porém, se as pessoas me cobram uma rápida aprovação em um concurso e eu estudo para concursos, então, aquela cobrança me afeta porque já é uma cobrança interna. Entende? Se eu me cobro, me culpo, me acuso por não ter casado, então, qualquer cobrança externa vai me afetar e me ferir. Talvez eu possa responder "sim, quero casar, tenho orado por isso e aguardo a resposta do Senhor. Você pode orar por isso também?".

Considerar a possibilidade de não casar não significa que é imperativo abandonar o sonho do casamento, significa encontrar contentamento hoje, na vida celibatária, encontrar conforto e alegria, colocando diante do Senhor a vontade casar e submetendo a Ele isso. Sempre preciso me lembrar de que quando Jesus nega algo a mim, sem dúvida, ele me dá contentamento na convicção de saber que tenho a Ele. E Ele é tudo o que realmente preciso. Se duvido disso é porque o reduzi a algo que Ele não é.

Entender que talvez você nunca case não é motivo para desleixo, antipatia e reclusão; lembremos. Algumas pessoas assumem o discurso celibatário não pelo contentamento, mas pela birra com a família, pelo medo de serem vulneráveis, pela frustração de relacionamentos anteriores mal sucedidos, pela preguiça de dedicar a vida a alguém. Nenhum desses motivos é fruto da fé e do amor, são só frutos de pecados não tratados ainda.


Talvez eu case


Talvez esse seja o real medo da nossa geração, dentro desse assunto. Uma geração que mora junto antes de casar, namora durante anos mesmo tendo condições de casar, muda de parceiro(a) ao menor sinal de conflito, termina relacionamentos quando o tema casamento entra nas pautas de conversas, tem receio de conhecer a família do outro, medo de assumir compromisso sério, precisa fazer teste drive pra saber se encaixa, faz de presentes e restaurantes os mediadores do amor, ama pelas redes sociais mas troca farpas indiscriminadamente quando olho-no-olho, não pode ser uma geração valente para o casamento. 

"Talvez eu case e dê errado. Talvez eu case e me arrependa. Talvez eu case ele(a) vá embora. Talvez eu case e eu queira ir embora. Talvez eu case e descubra que não amo. Talvez eu case e vire minha mãe/meu pai. Talvez eu case e descubra que casei com meu pai/minha mãe. Talvez eu case e descubra que tinha vocação para o celibato. Talvez eu case e perca a chance de ter uma carreira. Talvez eu case, não tenha uma carreira, ele me troque por outra e eu viva de pensão o resto da vida. Talvez eu case e decepcione a família com um casamento fracassado. Talvez o casamento fracasse e eu me veja impedido(a) de separar e passe o resto da vida infeliz. Talvez eu case e ele(a) morra; não seria se saberia lidar com o luto. Talvez eu case e o sonho vire pesadelo." 

Esses são exemplos de discursos internos saltando pela boca dos nossos amigos ou pelas nossas bocas. Que Deus tenha misericórdia de nós e da nossa covardia.

Os muitos casos de famílias que fracassam e geram diversos problemas para as pessoas, principalmente para os filhos, e mesmo para os cônjuges, nos fazem olhar o casamento como uma bomba relógio que a qualquer momento vai dar errado. Talvez, nessa hora, tenhamos de dar um pouco de razão àquelas vozes que acusam "você escolhe demais". É porque talvez, só talvez, a gente esteja tentando se certificar de fazer a melhor escolha, a escolha que não vai dar errado, a escolha que não vai reproduzir os casamentos fracassados que conhecemos. É só uma tentativa de proteger o coração da decepção. Não é de todo ruim, certo? Certo. Mas há limites!

É necessário nutrirmos a convicção de que um casamento bem sucedido depende dos encontros diários de cada cônjuge com o próprio Jesus. Algumas pessoas oram pedindo que o Senhor guarde o coração delas e, se elas tiverem de encontrar alguém, que essa pessoa a encontre no próprio Jesus, não o encontro de duas pessoas, mas de três, um homem e uma mulher que se encontram com e em Jesus. Assim é o casamento. O sucesso dele depende do quanto nos submetemos a Cristo e assim podemos nos submeter, um ao outro, em amor. Logo, não depende da força do nosso braço, mas da persistência dos nossos joelhos dobrados em oração (sentado e em pé também serve). Não é uma questão de saber se eu sou tão incompetente quanto meu pai ou minha mãe para manter um casamento, é questão de saber se eu e meu cônjuge estamos comprometidos em amar ao Senhor e amar um ao outro, abnegadamente. 

pausa:

('digno de glória e louvores, levantemos nossas mãos, te adoramos, ó Senhor, porque Grande és Tu, maravilhas fazes Tu, não há outro além de Ti, não, não há...' o rapaz do caminhão de lixo acabou de passar aqui e estava cantando essa música. Obrigada pela lembrança, rapaz)


Independente de casar ou não casar, devemos saber que há desafios em ambos os cenários. O solteiro lida com desafios próprios da vida de solteiro e é privado das preocupações do casamento. O casado usufrui das bençãos do matrimônio e precisa lidar com, ou suportar com longanimidade, as dificuldades de uma vida à dois. Não existe cenário perfeito, nem cenário superior ao outro. O solteiro por vezes é chamado a justificar sua solteirice. O casado é chamado a justificar porque ainda está com a primeira mulher se pode trocar por uma mais nova, por exemplo.

Esperar em Deus significa compreender quando Ele nos convida ao celibato ou ao matrimônio, encontrar contentamento em ambos, parar de fugir de ambos e viver pela fé em ambos. Escolher errado é se agarrar ao outro cenário acreditando que a felicidade está lá. Às vezes o Senhor está apontando que 'é hora de casar' e as pessoas se fazem de surdas, encontrando bons motivos para negar a voz do Senhor, o financeiro quase sempre assume o pódio nessas questões - se o Senhor aponta para o casamento, Ele vai providenciar os recursos, digam aos casais. Às vezes as pessoas insistem na amargura quando estão solteiras e nutrem no coração uma espécie de boleto cujo devedor é Jesus. Esperar em Deus é difícil, mas pense em quão tolo é agir contra a mente mais sábia que existe. 

Por fim, gosto de lembrar do fato de que Deus dá coisas boas aos seus filhos. Por mais esquisito que lhe seja pensar em casamento como algo bom, lembre que se o Senhor está te levando para lá, Ele mesmo estará lá e tudo o que vem dEle é bom. Se, porém, o Senhor te aponta hoje o celibato, isso também vem dEle e isso também é bom. Casados ou solteiros somos do Senhor, isso é sempre bom.



Aos casados ansiosos por casarem outros:

Parem de insistir que as pessoas casem. Insistam em que elas ouçam a voz de Jesus e se submetam à direção dele. E deixem que Ele guie os seus servos. As ovelhas ouvem, reconhecem e seguem o Bom pastor, Ele sabe onde é o lugar de alimento e descanso para o seu rebanho. Irmãos e irmãs, amigos e amigas solteiras, deixem que os outros falem sozinhos, deitem na palma da mão de Jesus, descansem e estejam contentes.








Com pouca simpatia mas com amor,

Paula Hadassa

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