Som

Eu sempre amei vocês profundamente. Ml 1:2

E se cala todo o resto. Todo ruído e murmúrio. Toda voz e acusação. Todo movimento, todo arrastar de móveis e coisas, toda barulho de pés que correm e mãos que fazem. Todo assobio discreto, todo acenar simpático. Todo cumprimento educado, todo plano em execução, toda execução em conclusão. Todo luzir, toda respiração funda, todo pigarro e abraço folgado. Uma brisa pesada de presença paira sobre os atentos e eles nem se aguentam sobre os pés. A suavidade é leve mas exigente, presente, impossível de ignorar; doce e forte, impossível de resistir. Chega entre a gente e sopra verdades duras, enfáticas, constantes e dotadas de braços que aproximam, argumentos que esclarecem e um tom manso que despedaça, estraçalha e torna pó todo olhar altivo e coração medroso. Sobre o pó sopra uma brisa fina, delicada. Desfaz o inútil e o refaz: belo sobre belo, graça sobre graça, luz sobre luz. Traz de volta o som, agora, cheio de significado. E desde então nada mais será como antes.
Mas o calar, ah, o calar; vez por vez ele tem de voltar.

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